Nos 150 anos da estreia de “Peer Gynt”
Henrik Klausen como Peer Gynt, 1876 @ Foto Ernst Emil Aubert / Oslo Museum

Nos 150 anos da estreia de “Peer Gynt”

Especial

Nos 150 anos da estreia de “Peer Gynt”

Nos 150 anos da estreia de “Peer Gynt”

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Marco do teatro moderno e da identidade norueguesa, Peer Gynt é também uma reflexão sobre a condição humana que combinando a crítica social do texto do dramaturgo Henrik Ibsen e a música de Edvard Grieg, constitui um pilar do romantismo tardio e tornou-a num clássico mundialmente reconhecido.

Em Janeiro de 1874, Henryk Ibsen convidava Edvard Grieg a participar naquela que viria a tornar-se numa das colaborações artísticas mais bem sucedidas do século XIX.
Dois anos mais tarde, a 24 de Fevereiro de 1876, Peer Gynt era levado à cena pela primeira vez, no Teatro Christiania, em Oslo.
Inicialmente hesitante, o compositor acabaria por aceitar o desafio de criar a partitura que acompanharia a representação do revolucionário poema dramático em verso.
Inspirada num conto popular, a peça relata, em tom satírico, as aventuras e a viagem de um camponês pelo mundo, que o levará da Noruega ao norte do continente africano. Alternando entre realidade e sonho, Peer Gynt cruza-se com personagens do imaginário escandinavo (trolls, gnomos e duendes) e figuras exóticas de outras culturas, caso de Anitra, a filha de um chefe beduíno.
A critica implícita ao povo norueguês, designadamente à sua presunção e mesquinhez, encontra eco numa personagem em que a procrastinação, a ilusão ou a mentira, funcionam como expedientes para fugir às responsabilidades e evitar a confrontação com os seus próprios sentimentos e ações. Posto à prova em situações extremas, Peer Gynt revela o lado mais nobre e o mais vil do ser humano, a sua grandeza e a sua miséria.
As reações à estreia dividiram-se. Um crítico da época fez notar que os requisitos para a encenação de um texto a transcender o tempo e o espaço eram impossíveis de satisfazer com a tecnologia existente. Mais favorável e consensual seria a opinião sobre a música. Ainda que Grieg tenha manifestado algum receio de reproduzir em demasia os detalhes da narrativa e de se ter mostrado até arrependido em aceitar o convite de Ibsen para uma tarefa tão exigente, foi a sua capacidade de retratar as nuances de cada personagem, cena ou situação, a cativar verdadeiramente o público desde o primeiro momento.
Sabemos hoje que o sucesso musical se deve, sobretudo, às duas suites orquestrais com peças extraídas da música de cena original, entre as quais a Canção de Solveig, a Dança de Anitra, De manhã ou No palácio do rei da montanha.

Nos 150 anos da estreia de Peer Gynt, recordamos esses e outros momentos da empolgante composição de Grieg, numa gravação com o maestro Edward Gardner, o Coro e a Filarmónica de Bergen, e as vozes solistas de Joahnnes Weisser (barítono), Lise Davidsen, Ann-Helen Moen e Victoria Nava (sopranos).
João Rodrigues Pedro