Na última segunda-feira de março, Supernova traz mais novidades discográficas, do Brasil com Clarisse Assad e Heitor Villa-Lobos, à irresistível seleção de concertos para trompete do século XX por Sebastian Berner, passando pela Europa com os mestres Handel, Purcell e Prokofiev ou a esquecida dinamarquesa Tekla Griebel Wandall.
Neste início de Primavera, Supernova atravessa o Atlântico ao encontro do Brasil retratado pela marselhesa Gaëlle Solal no disco RIO. O projeto começou a ser desenhado quando a guitarrista decidiu gravar o concerto da compositora Clarisse Assad, intitulado O Saci-Pererê, de 2013. Saci-Pererê é uma bem conhecida personagem mitológica brasileira, dos índios Tupi-Guarani, com a qual Clarisse se encantou desde a infância; um ser com poderes mágicos, que revela a sua maldade com pessoas de mau carácter, que adora pregar partidas e largar a sua sonora gargalhada quando as coisas correm mal, mas também capaz de se transformar num pássaro, o Matita-perê, que entoa uma melodia triste e bela. Em torno de uma personalidade tão exuberante, Clarisse Assad construiu um Concerto para guitarra e orquestra dividido em três andamentos, cada um descrevendo uma faceta da personalidade do protagonista: The Magic Cap, Matita-perê e Dust Devil. Ao procurar as origens da obra de Assad, Gaëlle Solal descobriu o Concerto para guitarra, W501, de Villa-Lobos e, posteriormente, descobriu Chiquinha Gonzaga, compositora olvidada da tradição do Rio de Janeiro, que figura no disco através da Suite com arranjos, feitos por Paulo Aragão, de 4 melodias suas.
Georg Friedrich Haendel e Henry Purcell são os dois colossos em destaque no álbum If Music… da dupla polaca constituída pelo contratenor Jakub Józef Orlínski e o pianista Michał Biel. Orlínski afirma que foram escolhidas árias e canções que inspiraram os dois intérpretes e, como tal, compara o álbum a páginas de um diário, testemunho do momento em que se encontra como artista. Biel admite que o disco não é a resposta à questão de como interpretar estas obras-primas com autenticidade histórica; ao invés, encara cada ária ou canção como uma transcrição pensada cuidadosamente, que revela o seu fascínio ao transcender a instrumentação original. O objetivo não foi modernizar ou romantizar a música que toca, mas executá-la no piano moderno, enquanto se mantém fiel às suas harmonias e ao seu espírito.
Outro artista polaco em destaque no Supernova é Michał Balas, um jovem de 25 anos com carreira a solo e na música de câmara que, em 2023, foi eleito uma das Classic FM 30 Under 30 Rising Stars. Balas juntou-se à Orquestra Filarmónica de Pilsen e ao maestro Chuhei Iwasaki para homenagear aquele que considera ser um dos mais fascinantes compositores do século XX, Sergei Prokofiev, cuja música combina poder expressivo, profundidade lírica e leveza — qualidades a que o violoncelista dá vida com grande sensibilidade musical e brilhantismo técnico. No centro do álbum está a Sinfonia concertante para violoncelo e orquestra, Op. 125, obra monumental, repleta de tensão dramática, melodias arrebatadoras e contrastes emotivos. Resultou da segunda revisão que Prokofiev fez do Concerto para violoncelo em Mi m, de 1938, e foi uma das últimas peças orquestrais que compôs. O álbum contém ainda andamentos das três Suites, Op. 107 a Op. 109, extraídas do bailado Cinderela.
O disco que reúne as 1as gravações mundiais das canções da dinamarquesa Tekla Griebel Wandall faz justiça a uma voz esquecida da 2ª metade do século XIX e início do século XX. Wandall compôs durante toda a sua vida, mas devido a problemas de depressão, ao casamento falhado e à escassez de rendimentos (que lhe impunha o ensino da música), a composição foi ficando em segundo plano e, quando a compositora morreu, a sua obra rapidamente caiu no esquecimento. Entretanto, à entrada do novo século, as apresentações do repertório que criara tornavam-se mais raras. A parte mais substantiva desse trabalho são as canções que, pela sua pequena escala, tinham mais probabilidade de ser interpretadas; por isso, nelas Wandall depositou todo o fulgor narrativo e toda a expressividade que alia texto à música, através do dramatismo. As novas edições foram a base do trabalho interpretativo de quatro dos melhores cantores da nova geração dinamarquesa: Louise Jacobsen, Sophie Haagen, Kristoffer Appel e Asmus Frederiksen. Acompanha-os o pianista Laurits Dragsted. A poesia é de autores como Oscar Madsen, Adam Oehlenschläger, Emma von Schultz, ou Johann W. Goethe.
Sebastian Berner, que em 2022 foi o vencedor da Competição Internacional Maurice André, é o 1º trompetista da Orquestra da Rádio de Frankfurt, com a qual gravou um programa recheado de bons concertos para trompete do século XX e estabeleceu o alto padrão de qualidade requerido para a interpretação deste repertório. As cinco partituras foram escritas entre 1913 e 1956: o Concertino, Op.41, do belga Joseph Jongen, o Concerto, Op.17, do seu discípulo, Léon Stekke (obra de 1937, em 1ª gravação mundial), Les Chants de Kervéléan, para trompete e pequena orquestra, de Charles Koechlin (de 1940, outra 1ª gravação mundial) e, ainda, a Suite en Trois parties, Op.133, de Florent Schmitt. É um universo francófono que fascina Berner pela riqueza de cores e pela subtileza da escrita, ao qual urgia dar mais visibilidade. Os ouvintes são premiados com um álbum absolutamente irresistível, da primeira à última nota.
Inês Almeida