Sergei Prokofiev é o Compositor do Mês em junho. De segunda a sexta-feira na Antena 2, vamos ouvir música sua nas emissões diárias, em edições especiais ou em programas como A Nossa Orquestra, A propósito da Música, entre outros. E todas as quartas-feiras acompanhamos um percurso pela vida e obra do compositor, conduzido por João Almeida.
Prokofiev: os anos 20 e a vida no estrangeiro (1917-1929)
Aos 28 anos Sergei Prokofiev demonstrava aos conterrâneos e ao mundo um génio criativo fulgurante, sobretudo ao piano.
Estamos em 1917, naquele que acabaria por ser um dos anos mais produtivos do compositor: para além da ópera O Jogador, da 1ª Sinfonia e do 1º Concerto para Violino, Prokofiev haveria de escrever nesse ano mais uma cantata e duas sonatas para piano, isto para além de outra obra de certo modo inesperada a que chamou Visões Fugitivas, também para teclado. Um registo bem diferente do habitual, neste caso predominantemente impressionista. Ainda em Petrogrado, o compositor concebeu, nesse mesmo ano de 1917, mais duas sonatas.
A Sonata para Piano nº 3, baseada em rascunhos da adolescência, com um único andamento, onde revela o espírito agitado de sempre, e a Sonata para Piano nº 4, que reflete o espírito divertido e otimista do compositor pouco antes da revolução de outubro. Os acontecimentos políticos apanharam Prokofiev algo desprevenido.
Ao mesmo tempo que Moscovo e Petrogrado entravam em grande tumulto, o compositor concebeu em Kislovodsk, a 1600 kms da capital, uma cantata intitulada Sete Ao Todo Sete, baseada nalguns dos escritos mais antigos do mundo, concebidos na antiga Mesopotâmia 3000 anos antes de Cristo. O conteúdo descreve um universo controlado por sete deuses demoníacos e respetivos poderes destrutivos e lança um apelo ao espírito da terra para afastar esses maus espíritos. Mais tarde Prokofiev haveria de explicar que o estilo primitivo da obra reflete a energia das forças revolucionárias que marcaram aquele ano.
Após a conclusão da cantata, Prokofiev ficou “sem nada para fazer uma vez que a Rússia não precisava de música naquele momento”, e decidiu tentar a sorte na América, pelo menos até que a turbulência na terra natal passasse.
Em março de 1918 partiu para os Estados Unidos, onde viveu durante dois anos, em São Francisco na Califórnia.
A permanência na América incluiu uma agenda de concertos por todo o país, designadamente em Nova Iorque e Chicago.

Prokofiev por Henri Matisse, 1921
Mas alguns contratempos no campo das encomendas acabaram por originar dificuldades financeiras e Prokofiev decidiu então rumar a Paris, já que não queria regressar à Rússia temendo que interpretassem esse regresso como um fracasso da sua incursão no estrangeiro.
Haveria de passar os 16 anos seguintes, entre 1920 e 1935, em diversos locais da Europa Ocidental, vivendo sobretudo como pianista, interpretando as suas próprias obras, designadamente o Concerto para Piano nº 3, estreado em 1921.
Na mesma altura Prokofiev escreveu a ópera O Amor das Três Laranjas, uma história com um misto de magia e fantasia.
Em 1922 mudou-se para uma cidade nos Alpes da Baviera onde viveu mais de um ano a fim de se concentrar em composições como a Sonata para Piano nº 5.

Prokofiev com a mulher e o filho, em Paris, em 1924
Em 1923 o compositor casou-se com a soprano espanhola Carolina Codina, mais conhecida como Lina. Viriam a ter dois filhos: Sviatoslav, nascido em 1924, e Oleg, quatro anos mais novo.
Por essa altura, Prokofiev compôs a ópera O Anjo de Fogo, um retrato da luta entre o bem e o mal.
Em 1925 o compositor está em Paris onde apresenta a Sinfonia nº 2, sem grande sucesso, diga-se, mas impressionando positivamente o famoso empresário da dança, Sergei Diaghilev, a ponto de ter encomendado um novo bailado a Prokofiev.
Le Pas d’Acier (O Caminho de Aço) é uma partitura modernista destinada a retratar a industrialização da União Soviética, designadamente a expansão dos caminhos de ferro, o tal caminho de aço. O bailado foi recebido com entusiasmo tanto pelo público como pela crítica parisiense. Passado uns anos, aconteceu o reverso da medalha: Prokofiev compareceu no Teatro Bolshoi para apresentar este bailado e perguntaram-lhe se a música retratava “uma fábrica capitalista, onde o trabalhador é um escravo, ou uma fábrica soviética, onde o trabalhador é o mestre? Se for uma fábrica soviética”, continuou o inquisidor, “quando e onde é que Prokofiev a examinou, visto que ele vivia desde 1918 no estrangeiro e só voltou a pôr os pés na União Soviética passado 10 anos e apenas por duas semanas…?”.
Os inquisidores acabaram por condenar o bailado como uma “caricatura antissoviética vulgar, uma composição contrarrevolucionária quase fascista”, e o Teatro Bolshoi não teve outro remédio senão rejeitá-lo.

Prokofiev com a mulher no Reino Unido, em 1927
Seguiu-se então, em 1928, a Sinfonia nº 3, amplamente baseada na ópera O Anjo de Fogo. O maestro Serge Koussevitzky caracterizou esta obra como “a maior sinfonia desde a Sexta de Tchaikovsky”. Nesta fase Prokofiev optou por compor num estilo que designou como “nova simplicidade”, para ele então preferível aos “artifícios e complexidades” de grande parte da música moderna dos anos 20.
Impulsionado pelo sucesso, Prokofiev continuou a compor baseando a sua Sinfonia nº 4 justamente no bailado O Filho Pródigo.
Por essa altura, Sergei escreveu também o último dos bailados que concebeu para Diaghilev: O Filho Pródigo, a história da relação conflituosa entre um jovem e o pai, até ao ponto do filho sair de casa, acabando por se meter em complicações com amigos.
Nesse mesmo ano de 1929 concebeu ainda o Quarteto de Cordas nº 1, uma encomenda da Biblioteca do Congresso em Washington. Pela frente teria ainda, a breve prazo, a composição de mais um bailado como forma de evocar a terra natal, e mais dois concertos para piano que constam hoje no panteão da música erudita do século XX. Isso e também a estória de Pedro e o Lobo serão os pontos cardeais do próximo episódio do compositor da semana.
João Almeida
