No quarto episódio de Sala Escura, e partindo da mitologia de Torre Bela, filme realizado pelo alemão Thomas Harlan, que se apaixonou pela utopia portuguesa do pós-25 de Abril, Inês N. Lourenço convida José Manuel Costa, antigo diretor da Cinemateca, e José Filipe Costa, realizador de Linha Vermelha (2012), para uma conversa acerca do que o tornou um objeto singular na história do cinema português.
Em 1975, Thomas Harlan andava em “missão fílmica” por terras portuguesas, a tentar perceber o fenómeno da reforma agrária e o que estava a acontecer num país que alcançara a liberdade ao fim de 48 anos de ditadura. Mais coisa menos coisa, o resultado dessa operação de filmagens, entre a carga espontânea do momento e o desejo de dirigir a realidade, foi Torre Bela, “um documento extraordinário”, como lhe chamou o crítico francês Serge Daney, que não só veio testemunhar os ímpetos do Processo Revolucionário em Curso, como ofereceu imagens de antologia do sonho de coletivização dos camponeses, que a 23 de abril de 1975 ocuparam os terrenos e a casa senhorial do Duque de Lafões, constituindo a Cooperativa Agrícola Popular da Torre Bela.
Partindo da mitologia deste filme realizado por um alemão que se apaixonou pela utopia portuguesa, o quarto episódio do Sala Escura convida José Manuel Costa, antigo diretor da Cinemateca, e José Filipe Costa, realizador de Linha Vermelha (2012), um documentário em torno do próprio Torre Bela, para uma conversa sobre a riqueza das histórias de bastidores que tornaram o documento de Harlan, nas suas várias versões, um objeto singular na história do cinema português.
Entre os dias 20 e 24 de abril, um restauro de Torre Bela está no centro de um ciclo organizado pela Cinemateca – “A Enxada é de Toda a Gente” –, que, para além dos convidados deste Sala Escura, conta com a presença do filho de Thomas Harlan, Chester Harlan, o montador Roberto Perpignani e o realizador Manuel Mozos, aqui na qualidade de arquivista da Cinemateca. Na sequência do ciclo, há uma edição DVD a caminho com essa cópia restaurada pelo ANIM, em colaboração com o Filmmuseum de Munique.
Inês N. Lourenço