Domingos 14h00 | Sábados 22h00 (repetição)
A partir de setembro de 2025
Um programa de Pedro Rafael Costa
O passado, próximo ou longínquo, bem ou mal conhecido, chega sempre até nós de uma forma deturpada e modificada. Quer seja pelas dinâmicas das sociedades que se alteram na passagem inexorável do tempo, quer seja pela forma como as recebemos no presente, essas realidades, por vezes longínquas, atravessam a nossa sensibilidade, moldada pela nossa herança cultural e social, e ao diluírem-se no nosso mundo interior, adquirem um resultado na nossa perceção, que pode ser bastante próximo ou muito distante da realidade abordada.
Por exemplo, quando hoje em dia ouvimos no conforto da nossa casa uma cantata de J. S. Bach, apreciamo-la confortavelmente instalados e decidimos no nosso íntimo e segundo o nosso ponto de vista, se a sonoridade e a interpretação se adequa à obra. No entanto, não devemos perder de vista que a referida obra foi notada num contexto muito diferente, seria parte integrante de uma cerimónia litúrgica numa igreja luterana alemã, e seria interpretada em condições muito diferentes das que nos encontramos nos dias que correm.
Como toda a herança do passado atravessou a marcha implacável do tempo, temos que procurar mecanismos para conseguirmos separar o imaginário do comprovável, sabendo que mesmo assim a realidade distante ainda estará afastada do modelo longínquo original.
A música escrita até às primeiras décadas do século XIX foi impregnada pelo espírito do romantismo, com a grande parte dos instrumentos alterados em relação aos utilizados nas épocas anteriores bem como por um movimento interpretativo e estético, que se estendeu a grande parte do século XX, bastante afastado dos modelos originais.
Os diversos intervenientes da Musicologia moderna têm feito todo um trabalho para que a música antiga se afaste desses modelos, que a fizeram chegar até aos nossos dias de forma substancialmente alterada, e que no presente fosse ouvida e sentida o mais próximo possível de cada época em que foi escrita. Mesmo sabendo que nunca seria perfeitamente exacta a forma como podemos reproduzir essas obras, os diversos intervenientes – investigadores, intérpretes, construtores de instrumentos, etc., procuraram nas diversas fontes que chegaram aos nossos dias, informações que pudessem, por um lado, desvendar as estéticas e as técnicas interpretativas – espalhadas em documentos e tratados, e por outro lado, a construção original dos instrumentos em uso.
No programa Divina Harmonia, procuraremos revisitar as múltiplas facetas da História da Música, tendo por base os instrumentos originais e as interpretações próprias de cada época.
Pedro Rafael Costa