Marianna Martines

Marianna Martines

Cem Sóis a Abater

Marianna Martines

Marianna Martines

Cem Sóis a Abater

A primeira série do programa de Inês Almeida sobre mulheres compositoras, Cem Sóis a Abater: Retratos de Mulheres Compositoras estreou no início de setembro. Cada episódio foca-se na biografia de uma personalidade, enquadrando-a no seu tempo e fornecendo pistas de escuta musical. Neste episódio, olhamos e escutamos Marianna Martines, conceituada compositora, cantora e instrumentista de tecla, nascida na Áustria. Foi a primeira mulher admitida na Accademia Filarmonica di Bologna e teve um lugar de relevo na vida musical vienense do século XVIII.

Marianna Martines (1744–1812), também conhecida como Marianne von Martinez, foi uma compositora, cantora e instrumentista de tecla austríaca que ocupou um lugar de relevo na vida musical vienense do século XVIII.
Descendente de uma família com raízes espanholas e napolitanas, cresceu num ambiente particularmente favorável à formação artística: o poeta da corte, Pietro Metastasio, amigo do pai e residente na casa da família, orientou a sua educação, confiando a aprendizagem musical a Joseph Haydn, Nicola Porpora e Giuseppe Bonno. Esta formação ligou-a à tradição napolitana, incluindo práticas de composição, improvisação e acompanhamento, e foi acompanhada pelo estudo de línguas e por uma cultura geral invulgar entre as mulheres da sua condição.
Ainda jovem, apresentou-se perante a corte e conquistou a admiração da imperatriz Maria Teresa. A execução da sua terceira Missa na Igreja de São Miguel, em 1761, quando tinha dezassete anos, constitui um marco da afirmação pública de uma carreira desenvolvida num contexto em que a educação musical feminina raramente conduzia ao exercício de funções profissionais remuneradas.

Retrato de Marianna Martines, por Anton von Maron, c. 1773

A produção de Martines abrange missas, motetos, salmos, oratórias, cantatas profanas, sonatas e concertos para tecla, além de uma sinfonia. A sua escrita combina clareza melódica e elegância galante com domínio do contraponto, expressividade vocal e exigência técnica.
Entre as obras mais significativas encontram-se a Sonata em Sol M (1769), a Sinfonia em Do M (1770), o Concerto para Tecla em Sol maior (1772) e o Dixit Dominus (geralmente situado em 1774).
O historiador Charles Burney, que a ouviu em Viena em setembro de 1772, testemunhou a qualidade do seu canto, da execução ao cravo e das composições.
Em Maio de 1773, Marianna tornou-se, segundo as fontes reunidas, a primeira mulher admitida na Accademia Filarmonica di Bologna; numa carta autobiográfica de Dezembro desse ano, descreveu a disciplina diária de composição e reconheceu a orientação de Metastasio. A apresentação da oratória Isacco, figura del Redentore, pela Tonkünstler-Societät, em Março de 1782, com Caterina Cavalieri e Ludwig Fischer entre os solistas, confirma a sua participação nas instituições musicais de Viena, para além dos círculos domésticos.

A morte de Metastasio, em 1782, trouxe-lhe uma herança de vinte mil florins, um cravo e uma biblioteca musical, reforçando a independência financeira que sustentava a sua actividade. Com a irmã, Antonia, organizou serões frequentados por Haydn e Mozart – com quem tocou a quatro mãos -, e, na década de 1790, criou uma escola de canto em sua casa.
As cantatas La tempesta, de 1778, Il nido degli amori, de 1783, e Orgoglioso fiumicello, de 1786, esta última dedicada à sua aluna Victoria de Fries, revelam a atenção às relações entre poesia, caracterização dramática e cor instrumental.
Martines morreu em Viena a 13 de Dezembro de 1812, dois dias depois da irmã, deixando uma obra cuja transmissão foi prejudicada pela perda de manuscritos, pela escassa publicação em vida e por narrativas históricas que desvalorizaram a criação feminina e a música dos salões.

A recuperação editorial e discográfica recente — incluindo o álbum La tempesta, gravado em 2014 por Anna Bonitatibus e La Floridiana, sob a direção de Nicoleta Paraschivescu — permite reavaliar o seu contributo e compreender melhor a diversidade da cultura musical do Iluminismo.
Inês Almeida