Este domingo, dia 18 de outubro, pelas 16h00, a RTP Antena 2 evoca num Especial o grande mestre do cinema sueco. Por entre leituras, memória, biografia e a música de Lars Johan Werle, Inês N. Lourenço vai às origens da obra-prima moderna de Ingmar Bergman.
No dia 18 de outubro de 1966, estreou em Estocolmo uma das obras mais marcantes do cinema mundial. Um filme-rasgão, um objeto experimental, misterioso, que entrelaçou, como muito poucos, palavra, silêncio e imagem numa possível expressão do subconsciente.
Persona – A Máscara é o filme de Ingmar Bergman que estabelece um novo capítulo de modernidade na filmografia do cineasta sueco, “apenas” com a história de duas mulheres: uma atriz, Elisabet Vogler, que emudeceu subitamente no palco, a meio de uma representação da peça Electra, e Alma, a enfermeira (ou “irmã”, como antigamente se dizia na Suécia) que a acompanha num retiro à beira-mar, transformando a passagem do tempo num monólogo intenso, com Elisabet, a atriz muda, a servir de ouvinte, e espectadora, para narrações cada vez mais íntimas. A “máscara” que é o rosto desta última, a intérprete Liv Ullmann, começa então a fundir-se com a “alma” encarnada pela outra atriz, Bibi Andersson…
Na sua génese, Persona contém vários elementos biográficos de Bergman, a começar por um episódio vivido, aos 10 anos, na capela mortuária do Hospital Sofia, e a acabar noutro que definiu como experiência de “não-existência”, provocada por uma anestesia excessiva, antes de uma operação. A colar estes dois momentos no tempo está uma fotografia de Bibi Andersson com uma atriz, então desconhecida, chamada Liv Ullmann: aquela imagem de duas mulheres, ao mesmo tempo parecidas e diferentes, como que escreveu o argumento desse filme que viria a ser rodado em Farö, a ilha do amor de Ingmar com Liv, que se tornou a casa e a paisagem de Bergman por excelência.
Em Persona temos a invenção do grande plano. A máscara e a alma. A transfiguração e a porosidade da pele. Enfim, a melodia vampírica que se forma a partir destas duas mulheres, Elisabet e Alma, Liv Ullmann e Bibi Andersson, elas que configuram, talvez, o cinema como prova tangível de uma mudança estética, da ausência de Deus, do poder visual dos sonhos.
Sem palavras, ou com discurso em abundância, é como se fica diante de um filme que cheira “a sono e lágrimas”, que se apodera do espectador, do mesmo modo que o grande plano do rosto inclinado de Liv Ullmann ao som do Concerto para Violino em Mi Maior de Bach hipnotizou Linn, a filha da atriz, e de Bergman.
Uma história íntima; no fundo, é disso que se trata.
Inês N. Lourenço
