Sergei Prokofiev é o Compositor do Mês em junho. De segunda a sexta-feira na Antena 2, ouvimos música sua nas emissões diárias, em edições especiais ou em programas como A Nossa Orquestra entre outros. E todas as quartas-feiras acompanhamos um percurso pela vida e obra do compositor, conduzido por João Almeida.
Prokofiev: depois da guerra… até ao fim (1941-1953)
Estamos em plena Guerra Mundial e Sergei Prokofiev compõe uma suite orquestral intitulada O Ano de 1941 que descreve… o ano de 1941: a Europa está em guerra, Estaline tentou entender-se com Hitler estabelecendo um pacto, dividindo a Polónia com os alemães, uma parceria que terminou, porém, algo inesperadamente em junho de 1941, quando a Alemanha nazi lançou a chamada ‘Operação Barbarossa’: a invasão, sem aviso prévio, da União Soviética.
Prokofiev tem agora pela frente a escrita da Sonata para Flauta que viria a dar um fruto extra já que serviria mais tarde para dar origem também à segunda sonata para violino. Em 1943 Prokofiev continuou a trabalhar afincadamente, desta feita em torno de uma ópera grandiosa: Guerra e Paz, a partir do grande romance de Leão Tostoi. A partitura foi revista várias vezes depois da guerra, com a estreia, porém, sucessivamente adiada pelas razões mais diversas.
Nesse ano de 1943 esteve também na forja o bailado Cinderella, do qual se destaca uma das mais belas valsas que o século XX conheceu!
No ano seguinte, nasceu também a Sinfonia nº 5, estreada no grande salão do Conservatório de Moscovo, num concerto dirigido pelo próprio compositor.
No cinema Prokofiev trabalhou, nessa altura, uma vez mais, com Eisenstein num dos filmes mais icónicos do cinema soviético: Ivan, o Terrível. A película evoca o Czar Ivan IV que governou a Rússia medieval no século XVI, um dos reinados mais longos da história russa, marcado pela ferocidade com que o monarca perseguiu os adversários, sobretudo os chamados boiardos, proprietários ricos que acabaram dizimados pela temível Oprichniki, o KGB ou a Gestapo da época.

Prokofiev jogando xadrez com David Oistrakh, com a violinista Liza Giles assistindo.
Pouco depois da Segunda Grande Guerra, em 1946, é estreada a Sonata para Violino nº 1, uma obra num certo sentido inesperada devido ao tom sombrio logo na abertura, uma atmosfera que surpreendeu toda a gente incluindo o solista que a estreou, David Oistrakh, que esperava o habitual estilo animado da música de Prokofiev.
Em 1945 o compositor sofreu uma concussão após desmaiar em casa devido a uma hipertensão crónica que toda a vida ele negligenciou. Depois duma longa recuperação, em 1947 surge a Sinfonia nº 6. Outra obra que vê nessa altura a luz do dia, é a Sonata para Piano nº 9.
Ainda em 1947 Prokofiev começa a ser alvo de críticas dos defensores mais acérrimos do regime. Acusam-no de procurar a inovação pela inovação, de snobismo artístico.
Nesse contexto, o estado proíbe a execução de oito obras de Prokofiev, incluindo a Suite 1941, as Sonatas para Piano nº 6 e nº 8 e a Ode ao Fim da Guerra.
Prokofiev está então a tentar segurar as pontas do seu sustento como compositor e pianista, e é nesse ínterim que escreve uma das obras mais deliciosas, ainda que discreta, de todo o seu legado: a Sonata para Violino Solo op. 115, concebida como alternativa às partitas de Bach sistematicamente apresentadas nos exames dos conservatórios de música russos.

Sergei Prokofiev e Mira Mendelson, escritora e sua segunda mulher, no 1º Congresso Pan-União de Compositores, na Casa dos Sindicatos, abril 1948.
Em 1948 Prokofiev conclui a sua nona e derradeira ópera: A História de um Verdadeiro Homem, que narra a vida de um heroico piloto de avião. Apesar do enredo de certa forma épico, o compositor não conseguiu que a ópera fosse estreada no Teatro Kirov.
Na primavera de 1949, Prokofiev dedicou-se então a escrever uma Sonata para Violoncelo para ser estreada no ano seguinte por Mstislav Rostropovich, então com 22 anos, com Sviatoslav Richter ao piano.
Outra das peças concebidas pelo compositor nessa altura, foi a Valsa Pushkin nº 2, que os ouvintes da RTP Antena 2 talvez conheçam já que durante muitos anos serviu de genérico ao programa Em Sintonia com António Cartaxo.
Em 1951, pegando num esboço que andava a burilar há anos, reviu aquilo que esteve para ser um concerto para violoncelo transformando-o, no fim de contas, numa Sinfonia Concertante, considerada hoje um marco no repertório para violoncelo do século XX.
Prokofiev continua nessa altura com a saúde bastante periclitante, mas tem ainda força para compor mais um bailado, o oitavo da carreira, intitulado A Flor de Pedra. Este bailado, tal como as derradeiras óperas de Prokofiev, só viria a ser estreado após a sua morte ou, mais bem dito, depois da morte de Estaline.
Com uma saúde cada vez mais frágil, Prokofiev encontrou ainda forças para assistir à estreia da sua Sinfonia nº 7, em outubro de 1952.
Esta sinfonia foi a última obra concluída pelo compositor. Outras sete aguardavam conclusão, mas… Prokofiev morreu no dia 5 de março de 1953 aos 61 anos. Por coincidência, Estaline também morreu exatamente nesse dia. A morte de Prokofiev é geralmente atribuída a uma hemorragia cerebral, sabendo-se, porém, que ele já estava bastante doente nos últimos anos. Oficialmente morreu com uma crise de hipertensão.
Para além de todo o seu legado, ficam também para a posteridade algumas partituras incompletas, obras inacabadas, pelo menos sete, incluindo uma Sonata para Piano nº 10 de que sobrou apenas um fragmento.
Sergei Prokofiev foi uma das figuras mais importantes da música soviética. As suas composições, ricas tanto melodicamente como na criatividade rítmica e harmónica, ficaram conhecidas pelo registo irónico e irreverente, bem ao gosto popular, ainda que com imensos exemplos duma complexidade que revela, sem dúvida, uma mente brilhante.
João Almeida
