“Trás-os-Montes”, há 50 anos

“Trás-os-Montes”, há 50 anos

“Trás-os-Montes”, há 50 anos

“Trás-os-Montes”, há 50 anos

No quinquagésimo aniversário da estreia de Trás-os-Montes, a RTP Antena 2 dedica um programa especial à obra-prima de António Reis e Margarida Cordeiro, entre sonoridades do próprio filme e aquilo que se escreveu à época sobre esse marco do cinema português.

Filme de encanto secular, que se estrutura como uma viagem pelo Nordeste do país, por ele entramos num percurso físico e murmurante, de aldeia em aldeia, captando a vivência rústica e o imaginário das gentes dessa região remota (Bragança e Miranda do Douro), um lugar pleno de memória coletiva, lendas e ancestralidade poética.

Rodado entre 1974 e 75, com uma pequena equipa, que o diretor de fotografia Acácio de Almeida integrou, Trás-os-Montes foi inicialmente pouco visto, e mal compreendido, em território nacional – como nota João Bénard da Costa, exortando os espectadores num texto publicado no jornal Expresso, duas semanas depois da estreia, ocorrida no dia 11 de junho de 1976 –, mas o certo é que, em 1978, o filme acabou por despertar em França um entusiasmo muito diferente.

A 19 de Abril de 1978, reportava assim o Diário de Notícias esse fenómeno da autoria António Reis e Margarida Cordeiro: “Trás-os-Montes encontra-se há mais de um mês em exibição, com lotações esgotadas, no cinema parisiense Action Republique e foi já solicitado para cinemas da província, enquanto a crítica francesa se tem referido em termos elogiosos a esta película portuguesa.” Na mesma notícia, reforça-se: “Os artigos publicados revelam a unanimidade dos aplausos e do fascínio provocado por este filme que alguns não hesitam em classificar como uma grande obra de arte”.

Basta lembrar que o cineasta Jean Rouch designou-o como uma “nova linguagem cinematográfica”, da mesma forma que Joris Ivens se referiu a ele como “um sinal claro, imediato, bem compreensível”, que põe “em alerta o espectador sobre o Portugal acordado, prestes a libertar-se”. Isto sem esquecer o olhar do crítico Serge Daney, que reflete, num magnífico texto, sobre o sentido da palavra afastamento num filme que não se limita a testemunhar a existência geográfica de Trás-os-Montes, procurando antes a pulsação mágica, e mítica, de uma região.
Inês N. Lourenço