Prokofiev: os anos 30 e o regresso à União Soviética
Prokofiev compondo junto a um tabuleiro de xadrez. Foto Ziarul Metropolis

Prokofiev: os anos 30 e o regresso à União Soviética

Compositor do Mês

Prokofiev: os anos 30 e o regresso à União Soviética

Prokofiev: os anos 30 e o regresso à União Soviética

Compositor do Mês

Sergei Prokofiev é o Compositor do Mês em junho. De segunda a sexta-feira na Antena 2, ouvimos música sua nas emissões diárias, em edições especiais ou em programas como A Nossa Orquestra entre outros. E todas as quartas-feiras acompanhamos um percurso pela vida e obra do compositor, conduzido por João Almeida.

Prokofiev: os anos 30 e o regresso à União Soviética (1929-1936)

1929 começou por ser um ano bom para Sergei Prokofiev. O estrondoso sucesso da ópera O Filho Pródigo e a frequente apresentação em concerto da Sinfonia nº 1, da Suite Cita e do Concerto para Piano nº 3 tinham melhorado significativamente as finanças do compositor. Parte desse dinheiro foi gasto no aluguer de um castelo em França onde a família Prokofiev passou o verão.

É nesse contexto que é finalizado o Divertimento Op. 43. Depois desse verão, a vida de Prokofiev deu, porém, uma guinada inconveniente na sequência dum acidente de viação enquanto levava a família de volta a Paris: o carro capotou, e para lá do susto, Prokofiev sofreu uma séria lesão muscular na mão esquerda. Ficou, portanto, impossibilitado de tocar, nomeadamente numa digressão que incluiria uma passagem por Moscovo.

Prokofiev com o famoso bailarino Serge Lifar, 1932

Nessa altura compôs mais um bailado intitulado Nas Margens do Dniepr cuja ação decorre na sua Ucrânia natal.

No início de 1930 Prokofiev, já com a mão esquerda recuperada, inicia uma digressão pelos Estados Unidos e em jeito de prova lança-se na composição do Concerto para Piano nº 4 justamente concebido como um exercício para a mão esquerda.
Seguiu-se o Concerto para Piano nº 5, o último da carreira do compositor, concluído no verão de 1932, estreado pelo próprio Prokofiev como solista, com a Filarmónica de Berlim dirigida pelo mítico maestro Wilhelm Furtwängler. O público aplaudiu efusivamente. O compositor, porém, não ficou satisfeito. Achou que não tinha acrescentado nada de novo ao seu repertório, e sentiu-se de tal modo que não voltou a compor concertos para piano.

Nos anos 30, tanto a Europa como a América sofriam com a Grande Depressão, circunstância que inibiu novas produções de ópera e bailado, embora o público para os recitais de Prokofiev como pianista não tenha diminuído. Mas Sergei via-se mais como compositor e, com saudades de casa, começa a construir as bases dum futuro regresso à União Soviética, agendando cada vez mais estreias no país natal.

Uma das empreitadas foi a banda sonora do filme O Tenente Kijé de Aleksandr Faintsimmer. O enredo é bastante satírico e retrata a futilidade dum czar empenhado em homenagear um militar sem saber que a figura não passava de um embuste.
Outra das obras de Prokofiev, a Suite Noites Egípcias, evoca a figura de Cleópatra, rainha do Egipto, descrevendo a relação amorosa com Júlio César e depois com Marco António. O final, como seria de esperar, é trágico, com o suicídio do casal perseguido pelo novo imperador romano César Augusto.
E chegou a vez de Prokofiev apresentar a última encomenda antes do regresso à União Soviética: o Concerto para Violino nº 2, uma obra recheada de belas melodias. Depois da estreia, o compositor regressou definitivamente ao país de origem, corria o ano de 1935.

Sergei Prokofiev com os seus filhos Svyatoslav e Oleg, c. 1930

No horizonte estaria já uma das suas obras mais famosas senão mesmo a mais famosa: Pedro e o Lobo, um conto sinfónico para narrador e orquestra, escrito para o Teatro Infantil de Moscovo da encenadora Natalya Sats. Uma obra lúdica baseada numa história com animais, em que cada animal é ilustrado por um instrumento diferente da orquestra. O personagem humano, concretamente um menino chamado Pedro, é evocado pelo conjunto de cordas.

Prokofiev tinha nessa altura 45 anos, e o seu apetite por histórias levou-o ainda a conceber a banda sonora de outro filme, A Rainha de Espadas de Mikhail Romm, baseado num conto de Alexandr Pushkin, cuja ação decorre em São Petersburgo por volta do ano 1800. As filmagens chegaram a começar, mas foram interrompidas, ou seja, o filme não chegou a estrear devido a uma nova política que exigia dos realizadores apenas filmes baseados em temas contemporâneos. Não ficou, portanto, o filme, mas ficou a música.

No próximo episódio abordamos um dos marcos centrais do legado de Prokofiev: o bailado Romeu e Julieta.

João Almeida