Supernova esta semana traz mais uma vez, várias propostas discográficas: de transcrições para marimba (ou vibrafone) e cordas de obras bem conhecidas, a concertos para violino de Vivaldi, à Sinfonia Pastoral de W. Mival, à ópera perdida de Thomas de Hartmann, à Bomba Flamenca, com Espanha na encruzilhada entre a Idade Média e o Renascimento, entre outras novidades discográficas.
Esta semana, Supernova descobre as transcrições para marimba (ou vibrafone) e quarteto de cordas de obras bem conhecidas de compositores como Vivaldi, Satie, Gershwin, Pärt, Debussy e Jean Cras. São propostas da percussionista Vassilena Serafimova e do Quarteto Ardeo, cujo encontro suscitou a necessidade de novos repertórios, atmosferas e sensações, recriados, em boa parte, a partir de arranjos originais. Para as cinco artistas, a origem do álbum está num “ato de partilha incessante, fortalecido ao longo de anos nos palcos”. A experiência é a de um equilíbrio delicado entre a marimba — ou, alternativamente, o vibrafone — e as cordas; a primeira revela-se como instrumento pulsante e sedoso, trazendo uma dimensão rítmica mais vincada e ocupando, aqui e ali, um papel concertante; as segundas oferecem um lirismo caloroso e uma textura, umas vezes densa, outras transparente, mas sempre subtil. Cada arranjo se perspetiva na recriação dos universos musicais dos compositores. Este espaço de encontro e criatividade, onde a curiosidade é uma força motriz, chama-se Melodies in a Bottle (ed. La Dolce Volta).
Os recordes e os números também têm importância no mundo da música erudita; que o diga o violinista Giuliano Carmignola, que acaba de lançar um disco a assinalar a proeza de já ter gravado 100 Concertos para violino de Antonio Vivaldi ao longo da sua carreira. Daí o título do álbum, Vivaldi 100, onde Carmignola reuniu uma seleção cuidadosa de 13 Concertos, para tocar com os seus colegas do ensemble I Solisti Aquilani e confirmar inequivocamente a sua cumplicidade com o repertório do génio veneziano, com o seu entusiasmo criativo e interpretativo. O disco inclui 4 Concertos para dois violinos, nos quais o co-protagonista é o concertino do ensemble, Daniele Orlando; essas obras exibem toda a mestria do diálogo vibrante entre solistas, enquadrado por uma textura orquestral rica e elegante (ed. Arcana).
Alto Appassionato viaja no universo musical denso da cidade de Paris no final do século XIX e início do século XX. Timothy Ridout, um dos mais impressionantes intérpretes da viola do nosso tempo, encetou essa viagem na perspetiva do violetista, compondo um programa com três obras originais de Léon Honnoré, Henri Büsser e George Enescu, a monumental Sonata para violino e piano, em La M, de César Franck (transcrição de Ridout) e ainda uma seleção de melodias de Fauré, também em novos arranjos, que exploram uma vasta gama de emoções. A escolha de Honnoré, Büsser e Enescu prende-se com o facto de todos terem escrito peças para Théophile Laforge, que em 1894 se tornou professor de viola do Conservatório de Paris, iniciando uma transformação profunda no papel do seu instrumento: a viola, durante muito tempo restrita ao papel de elemento da orquestra, fez um notável percurso de afirmação, com Laforge a encomendar, a compositores ou intérpretes que tivessem frequentado o Conservatório, obras que valorizassem as capacidades técnicas e expressivas dos seus alunos. Para a inclusão da Sonata de Franck, pesou a adaptibilidade da partitura à viola; e para a das canções de Fauré, a tessitura cantante da viola e a capacidade de expressar a intimidade. A acompanhar Ridout está o pianista Jonathan Ware (ed. Harmonia Mundi).
William Mival, nascido no País de Gales em 1959, é compositor, radialista, escritor e professor. Entre 2004 e 2022, foi diretor do Departamento de Composição do Royal College of Music e, na rádio, continua a ser uma das vozes mais apelativas da BBC Radio 3, onde contribui regularmente para o programa Record Review. A Philharmonia Orchestra e o maestro Martyn Brabbins oferecem agora aos melómanos a possibilidade de percorrer duas décadas de obras orquestrais de Mival com características distintas: a extensa Vale – Uma Sinfonia Pastoral (2022-23), a contemplativa Tristan – still (2003), que vai ao encontro do romantismo wagneriano e foi resultado de uma encomenda da BBC, e Pluen (Feather) (2018), baseada numa canção tradicional galesa. As notas de programa de Vale – Uma Sinfonia Pastoral aludem às paisagens da juventude do compositor no País de Gales, quer através de um estudo geológico do “fértil Vale de Clwyd, de uma imensa beleza natural”, quer através da citação de W.H. Auden, em In Praise of Limestone. Contudo, Mival apressa-se a explicar que não se trata de uma sinfonia programática e prefere sublinhar as suas raízes na escola romântica alemã e na sua admiração pela Sinfonia nº 5 de Vaughan Williams, bem como as referências pontuais a universos extra-musicais e subjetivos.
Esta semana, a ópera volta a estar em destaque no Supernova. A Orquestra Sinfónica de Bournemouth e o maestro Kirill Karabits, juntamente com um conjunto de solistas liderado por Corinne Winters e o Coro do Grange Festival, apresentam a 1ª gravação mundial da ópera perdida de Thomas de Hartmann: Esther, escrita quando o compositor ucraniano expatriado estava a viver na Paris ocupada pelos nazis, rodeado pelo eco dos horrores do Holocausto. Entre esses eventos da vida real e a história bíblica de Esther dramatizada por Racine, Hartmann descobriu fortes paralelos que o levaram a adaptar a peça do poeta francês. Portanto, a ópera é, de facto, uma resposta direta ao Holocausto e à 2ª Guerra Mundial. A partitura autógrafa, de 1946, ficou esquecida durante décadas e a sua reabilitação implicou um profundo trabalho de estudo e preparação para uma nova edição moderna, que passou pela análise da escrita orquestral e da linguagem estilística de Hartmann. Esther é descrita como uma obra que cruza a ópera e a oratória, com o seu ímpeto dramático moldado por monólogos extensos, comentários corais e um final triunfante; representa a síntese da abordagem eclética e poli-estilística de Hartmann e configura, para músicos e ouvintes, uma redescoberta fascinante (ed. PentaTone).
Bomba Flamenca é a concretização do projeto, de Simon-Pierre Bestion, de reimaginar as cerimónias fúnebres de Carlos V — que foram, na verdade, ensaiadas em 1558, dois anos depois de o monarca abdicar do trono ao pressentir a proximidade da morte. Bestion tem em vista um testemunho poético, incompleto, de uma Espanha na encruzilhada entre a Idade Média e o Renascimento; inspirando-se na arquitetura teológica de uma Missa de Requiem, desejou criar uma espécie de imersão espiritual e emocional no que poderá ter sido o ambiente musical sonhado para homenagear o maior monarca da época. Apesar de incluir algumas peças pensadas para as exéquias de Carlos V, a reconstituição de Bestion conduz o seu ensemble La Tempête sem receio de tomar liberdades a nível de timbre, tempo e expressão, pois tudo se adapta, segundo a sua ideia, ao espírito dos cortejos ao ar livre, como os que se realizavam nos jardins da fortaleza de Alhambra, em Granada. O programa vai de Janequin a Morales, passando por Narvaez, Gombert, Codex Calixtinus, Juan del Encina, Livro Vermelho de Montserrat, Thomas Crecquillon, cantos moçárabes, Pedro de Escobar, Marbriano de Orto, Cabezón e Flecha (ed. Alpha).
Inês Almeida