Um dos maiores vultos da música contemporânea polaca é Henryk Górecki. No episódio desta semana de Gira Discos vai poder escutar e apreciar três gravações da sua terceira sinfonia, também conhecida como Sinfonia das canções tristes.
Henryk Górecki (1933-2010) foi um dos vultos maiores da história da música polaca. Nos anos 50 e 60 a sua música colocava-o em sintonia com os movimentos de vanguarda, seguindo rotas distintas das então mais valorizadas pelo regime. Mas em meados dos anos 70 os seus interesses tomaram um rumo tonal, procurando um lugar de contemplação por vezes com um subtexto ligado a reflexões sobre a condição humana e a fé, refletindo ainda uma curiosidade pelas noções de espaço com afinidades às dos minimalistas (o que o levou muitas vezes a ser associado a contemporâneos como Arvo Pärt ou John Tavener).
A sua Sinfonia nº 3 (estreada em 1977) surgiu na sequência de uma série de estímulos, desde o encontro com um conjunto de canções folk do século XIX à descoberta de uma frase inscrita nas paredes de uma antiga cela da Gestapo, no Sul da Polónia, na qual uma rapariga de 18 anos pedia não apenas perdão por ali ter chegado mas também ajuda pelo que iria enfrentar. Como um lamento, a sinfonia é dominada pelas cordas que desenham uma lenta progressão e por uma voz que entoa, além dessa súplica registada em 1944, palavras de uma lamentação medieval e e ainda as de uma canção folk da Silésia. Mais do que uma simples evocação da dor da memória do Holocausto (e Górecki perdeu familiares em Auschwitz e Dachau), a sinfonia traduz sobretudo expressões de perda, de pesar, de mágoa. É assim como uma elegia sem foco concreto, daí talvez a multiplicidade de interpretações que tem gerado. A citação de 1944, contudo, justifica a ligação que muitos encontram entre esta música e a memória desses dias sombrios.
Uma interpretação pela London Sinfonietta, dirigida por David Zinman, contando com a voz de Dawn Upshaw, foi editada em disco em 1992 pela editora Nonesuch, apresentando um pormenor de uma foto de 1899 de Gertrude Käsebier na capa. O disco chegou ao nº 6 da tabela de vendas geral em Inglaterra, liderou a tabela de música clássica da revista Billboard durante 38 semanas e vendeu mais de um milhão de cópias… Causou assim um fenómeno talvez inesperado, mas que assim colocou no firmamento das grandes obras do século XX esta meditação sobre a perda, a morte e a força da relação entre uma mãe e um filho.
Houve entretanto novas gravações a entrar em cena, uma delas em 2019 com a Orquestra Nacional da Rádio Polaca, dirigida pelo compositor e maestro Krzysztof Penderecki, chamando a si a voz de Beth Gibbons (a vocalista dos Portishead). Outra, em 2020, foi registada pela búlgara Genesis Orchestra, dirigida pelo seu fundador Yordan Kamdzhalov, contando com a presença de Lisa Gerrard (a voz mítica dos Dead Can Dance).
Nuno Galopim