No segundo episódio de Sala Escura, uma conversa com os três pianistas residentes da Cinemateca que protagonizam o ciclo ‘Viagem ao Fim do Mudo’.
Desde setembro do ano passado, até finais de 2027, a Cinemateca está a percorrer a história do cinema mudo, em contagem decrescente para as comemorações da transição técnica que deu origem ao cinema sonoro, ou falado. O momento dessa transição tem a marca de um filme, O Cantor de Jazz, com Al Jolson, e é em direção à sua data de estreia – outubro de 1927 – que, todos os meses, a Cinemateca programa três filmes mudos, como forma de mapear esse capítulo longínquo da grande narrativa do cinema. Aí sobressaem os seus pianistas residentes, em sessões acompanhadas ao piano.
Os três pianistas – João Paulo Esteves da Silva, Filipe Raposo e Daniel Schvetz – são os convidados deste episódio do Sala Escura, onde se fala do ato criativo da música ao vivo, da influência ou não do público, e outras histórias. Isto numa altura em que o acompanhamento musical está a regressar, aos poucos, como prática “justificativa” de uma ida ao cinema.
Assim acontece também nos Estados Unidos, onde, segundo Alex Ross, crítico de música da New Yorker, há um renovado interesse nas sessões acompanhadas ao órgão, no caso. Uma renovação que está a passar inclusive pelas salas, estas a prepararem-se tecnicamente para retomar o hábito. Diz ainda Ross que as pessoas saem das exibições em êxtase, e arrisca um motivo:
“O consumo passivo torna-se ativo e criativo. O domínio tecnológico do espectáculo de cinema é humanizado pela imediaticidade da performance ao vivo. Percebe-se porque é que um artista como Murnau considerava o cinema mudo o medium perfeito”.
Inês N. Lourenço