No próximo sábado, dia 22, pelas 18h00, a Antena 2 apresenta a ópera em 3 atos La Spinalba, a obra-prima de Francisco António de Almeida, no programa Mezza-Voce de André Cunha Leal.
La Spinalba de Francisco António de Almeida
La Spinalba é uma ópera cómica em três atos do compositor português Francisco António de Almeida, uma das figuras centrais do barroco musical em Portugal. Escrita em 1739 e estreada no Paço da Ribeira, em Lisboa, a obra é exemplo notável da assimilação plena do estilo italiano pela música portuguesa do século XVIII, revelando um autor cosmopolita, espirituoso e de grande talento dramático.
Francisco António de Almeida (c. 1702 - c. 1755) foi bolseiro régio em Roma, onde terá aperfeiçoado os princípios da composição teatral italiana, absorvendo a elegância e o brilho do estilo napolitano. Regressado a Lisboa em finais da década de 1720, serviu na corte de D. João V, num ambiente de esplendor artístico e religioso. A sua obra abrange música sacra, serenatas e óperas, nas quais alia o contraponto aprendido à leveza melódica e teatral do novo gosto europeu. Acredita-se que Almeida tenha perecido no terramoto de 1755, episódio que interrompeu tragicamente a carreira de um dos maiores compositores portugueses da época joanina.
O libreto de La Spinalba (em italiano e de autor desconhecido) insere-se no género opera buffa, retratando com engenho e humor as confusões amorosas de um grupo de personagens tipicamente urbanos e inspirados na comédia de enganos italiana. A ação gira em torno de Spinalba, que, disfarçada de homem sob o nome de Florindo, procura reconquistar o amor de Leandro. Vespina, a sua criada arguta e espirituosa, participa nas intrigas, fomentando uma série de equívocos que envolvem também Dianora, Ippolito, Arsenio e Togno. O enredo é tecido de mal-entendidos e disfarces que, após múltiplas peripécias, culminam no tradicional desfecho feliz, com as identidades reveladas e os casais devidamente reunidos.
Musicalmente, a ópera segue a estrutura italiana clássica: abertura sinfónica em três andamentos (rápido-lento-rápido), recitativos secco e accompagnato, árias da capo de forma A–B–A’, e conjuntos animados que encerram cada ato. O estilo combina a efervescência melódica italiana com um humor vivo e típicos contrastes afetivos: alternam passagens de ternura com momentos de comicidade e leve ironia, num equilíbrio de enorme teatralidade.
A importância de La Spinalba para a história da música portuguesa é notável: trata-se de uma das primeiras óperas buffas compostas por um português e uma das raras obras desse género que chegaram até nós completas. O seu libreto italiano e a sua conceção dramatúrgica revelam o cosmopolitismo da Lisboa joanina, que à época competia culturalmente com as grandes capitais europeias. A ópera demonstra que Portugal não era um território periférico, mas um participante ativo na vida musical do continente.
A gravação efetuada em 2011 no Salão Nobre do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), em Lisboa, contou com um notável elenco: Ana Quintans (Spinalba), Joana Seara (Vespina), Cátia Moreso (Dianora), Fernando Guimarães (Ippolito), Mário Alves (Leandro), Luís Rodrigues (Arsenio) e João Fernandes (Togno). Foi lançada em 2012 pela Naxos, num registo amplamente elogiado pela crítica, que sublinhou a qualidade da execução com instrumentos históricos, a clareza do texto e a vivacidade teatral das interpretações.
Através desta recuperação exemplar, La Spinalba regressou ao convívio do público português e internacional, afirmando-se como obra-prima do barroco luso e testemunho de uma época em que Lisboa era um centro de criação e difusão musical de primeira grandeza. Com humor, engenho e elegância melódica, Francisco António de Almeida legou-nos uma ópera que une inteligência teatral e beleza musical, merecendo hoje um lugar de destaque no panorama da ópera europeia do século XVIII.
André Cunha Leal

@ C.T. Almada
Ficha técnica
Gravação pela RTP – Antena 2,
no Salão Nobre do Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa,
de 15 a 23 de Novembro de 2011
Spinalba: Ana Quintans (S)
Vespina: Joana Seara (S)
Dianora: Cátia Moreso (MS)
Ippolito: Fernando Guimarães (T)
Leandro: Mário Alves (T)
Arsenio: Luís Rodrigues (BT)
Togno: João Fernandes (B)
Marta Araújo (cru)
Os Músicos do Tejo
Direção de Marcos Magalhães
Mezza Voce é um programa de André Cunha Leal, com produção de Susana Valente.