“Porgy and Bess”, segundo Otto Preminger

“Porgy and Bess”, segundo Otto Preminger

Banda Sonora

“Porgy and Bess”, segundo Otto Preminger

“Porgy and Bess”, segundo Otto Preminger

Banda Sonora

No mês Gershwin celebrado pela Antena 2 em fevereiro, Banda Sonora de Mafalda Serrano convida, neste episódio, à revisitação de Porgy and Bess realizado por Otto Preminger, a primeira adaptação cinematográfica da ópera do compositor norte-americano.

27 fevereiro | 21h00

Porgy and Bess (1959)
Realização: Otto Preminger
Música: George Gershwin

Estreada em 1959, ou seja, 24 anos depois da primeira apresentação da ópera de George Gershwin baseada em Porgy de DuBose Heyward e Dorothy Heyward, a adaptação ao cinema Porgy and Bess, realizada por Otto Preminger, traduziu ecos de um tempo que começava a desenhar mudanças na sociedade norte-americana.

A partitura de Gershwin, concebida em 1935, integra tradições aparentemente díspares: a herança operática europeia e a matriz afro-americana do espiritual e do blues. Ao transpor essa estrutura musical para o cinema, Preminger não se limita a ilustrar a música, mas reorganiza o espaço e o tempo em função dela. A encenação torna-se dispositivo de escuta visual. O plano é concebido para acolher a expansão vocal; a câmara respeita a integridade performativa do canto.

No elenco surgiam figuras como Sidney Poitier (no papel de Porgy), Sammy Davies Jr. (como Sportin’ Life) e Dorothy Dandridge (como Bess). Se o romance privilegiava a interioridade e a descrição, a ópera de Gershwin elevou o conflito, a paixão e a fratura à esfera do mito musical. O filme de Otto Preminger, por sua vez, reinscreve esse mito numa espacialidade concreta, explorando a materialidade dos corpos. As interpretações de Dorothy Dandridge e Sidney Poitier instauram um regime de duplicidade entre o corpo visível e a voz projectada.

Escutamos hoje não apenas a música, mas também as palavras, os diálogos, a respiração de um filme como se de um corpo vivo se tratasse. Assim esta banda sonora constitui-se como expressão maior do cinema enquanto arte total e experiência sensível do humano.
Nuno Galopim