Se ter uma voz autoral é ser único e diferente, então em Moondog (1916-1999) a história da música do século XX e, sobretudo, a memória da contracultura que emergiu na Nova Iorque dos anos 60 e 70, tem ali um nome de absoluta referência.
Com uma vida algo nómada nos dias de uma infância, que foi em parte passada no grande Oeste, somou desde cedo as experiências que observou até perder a visão, aos 16 anos. E todas essas memórias acabaram por ser projetadas numa obra que, dividida entre géneros e com fronteiras estilísticas um tanto difusas, o fez caminhar sempre entre os universos próximos da música contemporânea, as cercanias do jazz e o entusiasmo dos melómanos mais atentos às franjas mais experimentais da cultura pop…
Louis Thomas Hardin, era este o seu nome. Nasceu a 26 de maio de 1916 em Marysville, no Kansas e nos dias de infância passou por muitos lugares e por contextos sociais e culturais bem distintos. Olhou, ouviu e somou experiências. E era ainda bem pequeno quando o pai foi chamado a trabalhar num lugar remoto no Wyoming, o que chegou a dada altura a levá-lo à presença de um velho chefe índio. Quando, hoje, escutamos a sua música, notamos que todos esses ecos remotos ganharam voz.
Depois de ter chegado a Nova Iorque nos anos 50 foram um período de relativa estabilidade para Moondog. Um casamento, uma filha e uma residência regular no Lower East Side. Acabou por assumir uma imagem que, pelas roupas e pelo lugar onde passou a estar diariamente, lhe valeu o nome de Viking da 6ª Avenida. E no final da década de 60 deu por si a gravar dois álbuns para o catálogo de música clássica da Columbia Records.
Era já um ícone aclamado pela contracultura quando, em 1974, um musicólogo europeu chegou a Nova Iorque e pediu ao taxista que o levasse até ao compositor.
De primeiras conversas e entendimentos nasceu uma colaboração em palco e, pouco depois, uma ponte de conhecimentos e interesse pela sua obra que o levaria à Europa, onde conheceu a etapa mais criativa e discograficamente produtiva da sua carreira.
Moondog é a figura em destaque no sétimo episódio da série “O Nosso Tempo”.
Nuno Galopim