Esta semana o Supernova destaca um leque bem diversificado de novidades discográficas: de Amanda Maier a Jan Dismas Zelenka, passando por Stravinsky, Prokofiev, Ødegaard e C.P.E. Bach.
Para o Trio Ernest, uma das primeiras descobertas de repertório de mulheres compositoras foi o Trio com piano em Mib M, de Amanda Maier — obra de virtudes líricas, na encruzilhada do Romantismo alemão e do folclore sueco; esteve perdido durante 150 anos e foi finalmente encontrado pelo bisneto da compositora, em 2016. Este Trio tornou-se a peça central de um projecto que segue as viagens e encontros de Maier e se consumou no disco de música romântica As Maravilhosas Aventuras de Amanda Maier, onde também estão: o Andante con moto de E. Grieg, peças de Clara e Robert Schumann (em arranjos de Maier), o Trio com piano nº 1 de C. Reinecke (professor de Maier) e, ainda, uma releitura das Árias e Danças Suecas, Op.6, que a compositora escreveu em colaboração com o marido, Julius Rontgen, em 1885, e que o Trio Ernest interpreta com Éléonore Billy, na nyckelharpa (ed. Aparté).
A Cappella Amsterdam, dirigida pelo reputado maestro Daniel Reuss, e a Noord Nederlands Orkest, gravaram um disco com as últimas obras de Igor Stravinsky. O trabalho traça a evolução do compositor através da adopção da técnica dodecafónica numa linguagem absolutamente pessoal e oferece interpretações transparentes e precisas de obras-primas rigorosamente estruturadas, com grande carga emocional. As 12 peças seleccionadas foram compostas entre 1949 e 1966 (período menos conhecido do compositor) e a interpretação conta também com 6 vozes solistas e harmónio (ed. Pentatone).
As ditas «Sonatas da Guerra» de Sergei Prokofiev compõem o novo álbum de Giorgi Gigashvili, no catálogo Alpha. São, portanto, as Sonatas para piano nº 6, nº 7 e nº 8, escritas entre 1939 e 1944, após o regresso definitivo de Prokofiev a Moscovo. Para Gigashvili, essas partituras são desafios que o pianista coloca a si mesmo e aos quais sobrevive com suor e sangue — luta entre intérprete e instrumento está envolvida em beleza que se descobre a cada acorde. O pianista georgiano conclui o disco com as peças Montéquios e Capuletos (Prokofiev, bailado Romeu e Julieta) e To Gia Kancheli, de Josef Bardanashvili, interpretadas com a violinista Lisa Batiashvili.
Para o norueguês Henrik Ødegaard, nascido em 1955, o património musical vivo nasce no campo de tensão entre passado e presente. Com o álbum Te Deum, com Cinco Poemas e Um Hino de Jon Fosse, o compositor apresenta uma oratória moderna em 15 partes, majestosa, misteriosa e repleta de beleza radiante, para 2 solistas, coro misto, órgão e 4 trompas; o resultado da alternância entre texto tradicional latino e poemas de Fosse é um diálogo entre liturgia medieval e poesia moderna que integra células melódicas e rítmicas do canto gregoriano em novas texturas sonoras (ed. Simax, com o Ensemble 96, sob a direcção de Nina T. Karlsen).
Alessandro Deljavan explora a imaginação desassossegada e a ousadia expressiva de Carl Philipp Emanuel Bach, num tempo em se digladiavam a matriz contrapontística barroca e a clareza clássica. CPE Bach forjou uma voz inconfundível, conquanto filiada na estética do Empfindsamkeit (estilo “sensível”), com os seus contrastes repentinos, as reviravoltas harmónicas inesperadas e as mudanças caprichosas de humor a espelhar a própria natureza humana. O álbum, intitulado The Hidden Legacy, contém fantasias, rondós, peças de carácter e sonatas para tecla, em interpretações ao piano (ed. Challenge).
Collegium 1704 e Collegium Vocale 1704, sob a direção do maestro Václav Luks, dão um contributo decisivo para a apreciação fundamentada do universo sonoro religioso de Jan Dismas Zelenka. As alusões teológicas e litúrgicas vertidas em estruturas sofisticadas e em alta emotividade são, afinal, características centrais de várias missas até aqui pouco estudadas, como a Missa Circumcisionis Domini nostri Jesu Christi, ZWV 11 (1728), e a Missa Corporis Domini, ZWV 3 (década de 1710), ambas escritas para a corte de Dresden (ed. Accent).
Inês Almeida