O programa A Propósito da Música de Alexandre Delgado neste ciclo sobre George Frideric Handel, um dos grandes compositores do Barroco e que influenciou profundamente a música clássica ocidental, dedica este episódio às cantoras com quem teve importantes parcerias: Margherita Durastanti e Vittoria Tarquini.
Os êxitos de Handel em Itália e em Inglaterra tiveram a colaboração de grandes cantoras. A primeira delas foi Margherita Durastanti, com quem Handel teve a mais duradoura parceria artística da sua carreira. É a primeira cantora que se conhece cujas qualidades vocais estão diretamente relacionadas com a música que Handel escreveu para ela. Estreou a maior parte das cantatas de câmara que Handel compôs em Roma; estreou também o papel de Maria Madalena na oratória A Ressurreição em 1708 e no ano seguinte protagonizou a ópera Agripina em Veneza. Com uma carreira longa, já nas décadas de 20 e 30 foi chamada por Handel a integrar os seus elencos de ópera em Londres.
Quando Handel conheceu Margherita Durastanti, esta teria 21 anos, menos um do que ele. Ambos artistas residentes ao serviço do Marquês Ruspoli, acompanhavam-no nos seus périplos e às refeições sentavam-se com ele na mesa principal (e não na cozinha junto com os criados, como ainda viria a acontecer com Haydn no palácio de Esterháza). Apesar da estreita ligação profissional entre ambos, não há indícios de que tenham tido uma relação amorosa. Os biógrafos gostam de levantar essa hipótese, em relação não apenas à Durastanti, mas à maioria das cantoras que trabalharam com Handel. Tendo em conta que este era muito provavelmente homossexual, esses supostos affaires com cantoras parecem-se mais com tentativas de “straightwashing” por parte dos biógrafos, ou seja, de “branqueamento heterossexual”, à semelhança do que os grandes estúdios faziam em relação aos atores gay na época de ouro de Hollywood.
Vittoria Tarquini é outra das prima-donas que os biógrafos gostam de apontar como possíveis amantes de Handel. O primeiro a lançar essa hipótese foi o pioneiro Maynwaring, cuja biografia foi publicada em 1760. Isto apesar de Vittoria ser quinze mais velha que Handel e ser a amante oficial de Ferdinando de Medici, o príncipe herdeiro da Toscânia. Era conhecida como La Bambagia, “o algodão”, talvez por causa da sua cabeleira loira, ou então da sua silhueta opulenta. E é possível que tenha sido ela a estrear uma das cantatas que Handel compôs para essa ocasião, Un’ alma innamorata.