Esta segunda-feira mais um Supernova, com renovada seleção de novidades discográficas, na qual sobressaem as obras corais de Rubbra, a 7ª sinfonia na integral de Mahler, a ‘descoberta’ de Mazeppa, a ópera em 5 atos da francesa Clémence de Grandval, e a fechar, concertos para violino.
Esta semana o Supernova começa em modo de ante-estreia: o álbum do Coro de Merton College, em Oxford, e do maestro Benjamin Nicholas, dedicado ao inglês Edmund Rubbra, saí no próximo dia 27 de março, contendo uma generosa seleção de obras corais sacras escritas entre as décadas de 1920 e ’80.
Determinado a compor apenas o que para si fazia sentido, imune a modas ou popularidade, Rubbra encarou a sua fé religiosa como estruturante do próprio pensamento criativo, que aliás sublimava na “descoberta de algo que já existe”. Foi um compositor prolífico e imaginativo, pertencente à vanguarda inglesa do séc. XX. Afirmou, quanto ao processo de composição: “Nunca sei para onde vai uma peça; quando começo, a minha única preocupação é fixar um ponto de partida de que esteja seguro. A minha imaginação descobre a arquitectura por mim”.
A vasta obra coral que Rubbra nos legou está imbuída de pensamento religioso e filosófico, entre a espontaneidade da descoberta e o raciocínio musical disciplinado. Este novo álbum leva-nos da Cantata di Camera: Crucifixus pro Nobis (1ª gravação), até ao Evening Service, Op.65, passando por jóias metafísicas como os Cinco Motetos, Op.37, ou The Revival, Op.48 (1ª gravação, também). Também contém a Missa in Honorem Sancti Dominici, composta em 1948 para celebrar a conversão oficial de Rubbra ao catolicismo; é uma peça em 6 andamentos sucintos que põe em confronto as harmonias em bloco do organum e as técnicas contrapontísticas do Renascimento (ed. Delphian).
No capítulo das estreias de repertório, referência obrigatória à violoncelista norte-americana Kristina Reiko Cooper, que em 2025 interpretou pela 1ª vez, em Nova Iorque, a Fantasia para violoncelo e orquestra, Op.52, de Weinberg, e o Concerto para violoncelo, em Do M, Op.37, de Korngold. O respetivo disco surge agora que Cooper reencontra a Orquestra Sinfónica da Cidade de Kaunas e o maestro Constantine Orbelian; a concluir o programa está o Concerto para violoncelo, Op.43, de Weinberg. Ambos os compositores viveram os tumultos da guerra no séc. XX com o estigma da herança judaica. A sua música, rica em emoções e complexidade, é testemunho do espírito de resistência e da mensagem de esperança e beleza que triunfa sobre o desespero. O Concerto de Korngold emergiu da última banda sonora para a Warner Brothers, no filme Deception, de 1946; Cooper descreve-o como “uma ponte entre o passado e o presente, uma lembrança do brilhantismo artístico que floresceu antes da escuridão da guerra” (ed. Delos).
A Orquestra Tonhalle de Zurique e o maestro Paavo Järvi continuam intrepidamente e gravar a integral das Sinfonias de Gustav Mahler. O novo disco da série contém a Sinfonia nº 7, em Mi m, considerada uma das mais complexas e difíceis do conjunto. Järvi defende que nela “o Mahler que encontramos é mais complexo, sombrio e mais filosófico do que o que conhecemos de obras anteriores”. A partitura foi escrita durante os Verões de 1904-05 e tem em si os ecos da paisagem do Lago Wörthersee, nos Alpes austríacos. O tema de abertura, na trompa tenor em Sib, levou a que Mahler dissesse: “Aqui, a Natureza ruge”. Aliás, toda a Sinfonia emprega uma instrumentação invulgar, que inclui um vasto naipe de percussões, uma guitarra e um bandolim; a orquestração está cheia de efeitos surpreendentes, dramáticos e empolgantes, que enriquecem a já de si impressionante paleta de cores mahleriana, à qual a Tonhalle e Järvi respondem com idiomatismo (ed. Alpha).
Foi lançado o 4º volume das obras completas para piano do argentino José Antonio Bottiroli. Nascido em Rosario, a 1 de Janeiro de 1920, Bottiroli foi compositor, poeta e professor e encontrou no idioma Romântico — em particular, nas pequenas formais musicais — o seu meio de expressão ideal. As suas peças possuem uma notável gama de atmosferas, intimidades, experiências reais e cenas naturais, para além de retratos elegíacos de pessoas queridas. Desse modo, Bottiroli afirmou-se como uma voz em contraciclo com a geração anterior de compositores argentinos, filiada nas correntes musicais modernas (e recorrendo ao folclore e às danças nativas). Este 4º volume é o que melhor ilustra a versatilidade do compositor (com peças para piano solo, duo de pianos, orquestrais e de câmara), nomeadamente através da Suite “Argentina” para dois pianos, de inspiração vernácula — os seus andamentos, com elementos de escrita muito diversos, baseiam-se em duas danças e um canto tradicionais da Argentina: Chamamé, Triste e Malambo. É, de novo, o pianista Fabio Banegas, discípulo de Bottiroli e catalogador das suas obras, o protagonista do disco, onde também participam a Filarmónica de Brno, o Antón e Maite Piano Duo e o Duo de Rêve (ed. Grand Piano).
Também as descobertas operáticas estão de regresso ao Supernova. Mazeppa, a ópera em 5 actos da francesa Clémence de Grandval, sobre poema de Charles de Grandmougin e Georges Hartmann, surge agora pela 1ª vez em disco. É considerada a obra testamentária de Grandval, a compositora mais tocada na França do final do séc.XIX. O seu catálogo de obras é generoso e variado, com sucessos garantidos, por exemplo, no universo da música de câmara, ou da oratória.
Mazeppa, que resultou numa “partitura verdadeiramente admirável e cujo êxito agitará o mundo musical” (escreveu a crítica, à época), não foi estreada na Ópera de Paris, mas no Grande Teatro de Bordéus, a 23 de Abril de 1892. Levou a palco a lenda do herói do séc. XVII, nascido na Lituânia, que seduziu uma princesa casada com um homem mais velho. A sua punição foi ser amarrado nu a um cavalo e, desse modo, acabou por chegar à Ucrânia, onde os cossacos que o encontraram o nomearam seu hetman (líder militar). A lenda já havia inspirado poetas como Byron, Pushkin e Victor Hugo, e compositores como Tchaikovsky e Liszt; Clémence de Grandval inscreveu-se na linhagem a não falhou o aplauso da audiência e da crítica, reconhecedoras do dramatismo, da veemência e da paixão que atravessam a nova ópera. Nesta gravação os protagonistas são interpretados por Tassis Christoyannis, Nicole Car, Julien Dran, Ante Jerkunica e Pawel Trojak; acompanham-nos o Coro da Radiodifusão da Baviera e a Orquestra da Rádio de Munique, sob a direcção de Mihhail Gerts (ed. Bru Zane).

Por fim, destaque ao álbum que reúne o violinista Gil Shaham, o maestro Eric Jacobsen e a Orquestra Sinfónica da Virgínia, num programa que explora o concerto para violino como veículo de memória cultural e continuidade. São cotejados o Concerto para Violino, Sol m, Op.80, do inglês Samuel Coleridge-Taylor, e o Concerto para violino, La m, Op.53, do checo Antonín Dvorák.
A obra de Coleridge-Taylor, datada de 1911 e estreada no ano seguinte por Maud Powell (a dedicatária), a Orquestra do Festival de Norfolk e o maestro Arthur Mees, revela uma voz romântica moldada pelo lirismo e a vitalidade rítmica. Powell foi, também, quem fez a estreia americana do Concerto de Dvorák; no caso de Coleridge-Taylor, pediu-lhe uma obra inspirada nos espirituais negros e o compositor respondeu, até certo ponto, como pretendido, sem deixar, no entanto, de apelar a sonoridades mais típicas das ilhas britânicas (ed. Canary Classics).
Inês Almeida