Este fim de semana, a assinalar a passagem dos 60 anos de Max Richter, o programa Sala 2 (sexta, 21h00) dedica todo o episódio à música que o compositor já criou para o cinema. Outras dimensões da sua obra, com destaque para a sua “re-composição” de um clássico de Vivaldi ou o colossal Sleep ocupam o episódio de domingo (às 22h00) do Gira Discos.
Max Richter nasceu na Alemanha (a 22 de março de 1966) mas cresceu e foi educado no Reino Unido. Aí, a sua viagem, de descoberta da música partiu do punk, num percurso que acabaria por levá-lo à Universidade de Edimburgo, depois à Royal Academy of Arts, e mais tarde a outra etapa vivida em Florença. Os primeiros concertos que viu foram dos Clash e Kraftwerk, quando tinha 14 anos. A sua carreira profissional começou quando integrou o coletivo Piano Circus, grupo com o qual interpretou obras de Steve Reich, Philip Glass, Arvo Pärt ou Brian Eno. Seguiram-se colaborações com os Future Sound of London e Roni Size. E foi assim juntando experiências que, para si, sempre “flutuaram juntas”, como ele mesmo explicou. Depois da viragem do milénio editou em nome próprio o álbum Memoryhouse.
Ao mesmo tempo começou a trabalhar para o cinema. Assinou música para curtas em 2003, ano em que trabalhou numa primeira longa metragem, assinada por Christine Wiegand. De então para cá assinou diversas outras bandas sonoras entre as quais as de Valsa Com Bashir (2008) de Ari Folman, Imperdoáveis (2011) de André Téchiné, Lore (2012) de Cate Shortland, O Congresso (2013) de Ari Folman, The Last Days on Mars (2013) de Ruaíri Robinson, Ad Astra (2019) de James Gray, O Astronauta (2014) de Johan Renck ou Hamnet (2025) de Chloé Zhao, que lhe valeu uma nomeação para os Óscares.
Em 2012, assinalando a sua estreia no catálogo da Deutsche Grammophon, apresentou uma primeira gravação de uma “re-composição” feita sobre As Quatro Estações de Vivaldi, que tinha apresentado, nesse mesmo ano, no Barbica (Londres). A gravação contava com a Konzerthaus Kammerorchester Berlin, dirigida por André de Ridder, o violinista Daniel Hope, o cravista Raphael Alpermann e o próprio Max Richter nos sintetizadores.

Outra das suas obras de referência é Sleep (2015), pensada para ter a duração de uma noite de sono de um ser humano. Trata-se de uma extensa peça com de oito horas de duração nas quais a música procura questionar o modo como o som e o sono podem interagir. Durante uma performance de Sleep, que ocorre sempre durante a noite, o público é convidado a instalar-se numa cama, podendo dormir ou manter-se acordado.
Estamos, de facto, habituados à ideia de que alguém cria obras que, conscientemente, o outro pode contemplar através de um ou mais entre os sentidos. A sugestão de que uma obra convida o espectador a adormecer como parte do seu quadro de objetivos pode por isso parecer, à partida, uma proposta estranha. Mas a ideia de Max Richter não é a de votar o seu trabalho a uma anulação da música perante o sono (desejado) do ouvinte. Mas antes criar uma música que pode ter nessa experiência uma das suas possíveis leituras, entre elas uma reflexão da própria forma de pensar as normas e condutas éticas da música ao vivo, sobretudo em terreno clássico e um desejo em contrariar os ritmos frenéticos pelos quais muitos de nós, sobretudo os que vivem em grandes cidades, fazem o seu dia.
Sleep existe em duas versões distintas. Uma com as oito horas, que por vezes é executada de fio a pavio, em salas nas quais haverá camas em vez de cadeiras e que está gravada em disco. E, apenas para LP, CD e escuta nas plataformas digitais, uma outra, reduzida, com cerca de uma hora de duração. Aqui há uns anos, em conversa com Max Richter, ele mesmo explicava-me que “as duas versões, a de oito horas e a de uma hora, estão apontadas a experiências distintas”. O compositor pensou a de uma hora “para um relacionamento consciente, ou seja, a audição”, e essa experiência “envolve uma componente analítica, porque ao escutarmos a música acabamos a fazer julgamentos sobre ela, podemos dialogar com esse material mentalmente”. Já a versão de oito horas “sugere mais o habitar de uma paisagem e supostamente serve para cenário do ato de dormir”. A relação com o material aí “não é analítica”, conclui.
Uma obra com as características de Sleep recorda, do ponto de vista da relação com a duração (ou seja, o tempo), algumas experiências experimentais que cruzaram os palcos do teatro e o trabalho de alguns músicos nos anos 60 e 70, com a ópera de Philip Glass e Robert Wilson Einstein on The Beach como um possível exemplo desse mesmo universo. Max Richter reconhece esse possível relacionamento e confirma um interesse “nessa ideia de uma música que contém espaço e duração na qual o ouvinte pode refletir enquanto ela ainda está a decorrer”. Que no fundo é o que aqui acontece, na experiência total, de oito horas, quando apresentada ao vivo. Outra das possíveis fontes de inspiração, ou pelo menos, material de reflexão para chegar a esta experiência de composição conduz-nos à obra de Brian Eno, em particular a caminhos que ele mesmo começou a explorar em 1975 no álbum Discreet Music. Assimilando o classicismo ocidental, as lições dos minimalistas e as sugestões da ambiente music, Max Richter continua aqui a ajudar a encontrar os caminhos para a música do século XXI.
Nuno Galopim