No centenário do comediante, cineasta e cantor Jerry Lewis (1926-2017), assinalado pela Antena 2, Inês N. Lourenço cruza cenas de filmes, pantomima, música e memória numa viagem pela arte daquele a quem Martin Scorsese intitulou de “Rei da Comédia”. Um dos mais sofisticados cómicos americanos, que foi também um notável intérprete musical, não apenas ao lado de Dean Martin.
Nascido Joseph Lévitch, a 16 de março de 1926, em Newark, New Jersey, numa família de imigrantes judeus russos, Jerry Lewis cresceu no circuito dos espetáculos de variedades, filho de pai ator de vaudeville e mãe pianista. Nesse meio conheceu, em 1946, Dean Martin, com ele formando uma das duplas mais populares da cena nova-iorquina. Trabalhavam em cabarés, enchendo salas com os seus números baseados no contraste dos perfis: Martin era o galã, circunscrito a essa nota sedutora; Lewis, o ingénuo espalha-brasas, criança desastrada, cuja coreografia imprecisa parecia sempre extravasar os limites do palco… Como não poderia deixar de ser, o sucesso tremendo desses espetáculos chamou a atenção dos executivos dos estúdios (Paramount), que, em 1949, propuseram a transição da dupla para o cinema, com A Minha Amiga Irma, de George Marshall, a marcar o arranque de uma série de 16 encontros no grande ecrã, perfazendo uma década de parceria que cimentou a dinâmica burlesca e musical.
A América do pós-Segunda Guerra Mundial ria com as caretas, o entortar dos olhos, a voz anasalada de Jerry Lewis, e sobretudo apreciava a beleza dos opostos: a linguagem física do comediante tornava-se cada vez mais expressiva, enquanto a voz madura, elegante, de Dean Martin garantia o selo clássico. Chegada ao fim a dupla com Martin – o último filme que fizeram juntos chama-se Hollywood or Bust / Um Espada Para Hollywood (1956) –, Lewis iniciou uma carreira a solo que acabaria por responder diretamente ao título da canção What Would You Do Without Me?, O Que Farias Tu Sem Mim? ou O Que Serias Tu Sem Mim?, cantada em dueto no filme O Grande Jogador (1953), de Norman Taurog. De facto, sem Martin, Lewis soube o que fazer, expandindo o seu repertório criativo e estabelecendo-se enquanto individualidade artística, desde logo através das comédias de Frank Tashlin, o cineasta que melhor compreendeu a sua genialidade, incentivando-o a dar o passo para a realização, ainda que não tenha deixado de o dirigir ao longo do tempo.
Como realizador, Lewis revelou, logo no primeiro filme, The Bellboy / Jerry no Grande Hotel, de 1960, um talento enorme para a disposição cómica do espaço, e um fraquinho pela metalinguagem. Na pele de um paquete num hotel de luxo, diverte-se no registo mudo, entre Chaplin e Buster Keaton, com pozinhos de Stan Laurel (que tem direito à sua própria citação), criando um universo onde a ausência de história se reflete em sucessivos gags inteligentes, tão clássicos quanto originais.
A modernidade aqui alcançada, teria imediata confirmação na comédia que assinou no ano seguinte, The Ladies Man / O Homem das Mulheres (1961), com aquele fabuloso cenário que dá a ver todas as divisões de uma casa, tipo maquete ou casinha de bonecas, por onde circulam dezenas de mulheres. Projeto mais ambicioso, com uma mise-en-scène exemplar, que troca o preto e branco pelo Technicolor, este é o filme em que Jerry Lewis dá verdadeiramente azo à ideia do espaço como matéria de exploração do medo. No caso, o medo das mulheres. A sua personagem é então um jovem empregado de uma pensão feminina que, na natural postura desordenada, reage às mulheres como quem incorporou uma coreografia de pavor ao romance; não deixando esse pavor de conviver com uma certa curiosidade…

O Homem das Mulheres (1961)
Atrás e à frente da câmara, o génio de Jerry Lewis prosseguiu a aventura com The Errand Boy / O Mandarete (1961) – que acaba por emparelhar com Jerry no Grande Hotel, não só pelo breve regresso ao preto e branco, como pela estrutura assente em gags sem necessária lógica narrativa – e logo depois, em 1963, é lançado The Nutty Professor / As Noites Loucas do Dr. Jerryll, uma variação de O Médico e o Monstro em que de dia temos um cientista feio, dentudo, e à noite, após a ingestão da poção mágica, vem à tona Buddy Love, um playboy egomaníaco, sedutor arrogante, que muitos viram como a caricatura de Dean Martin.
Uma constante nos filmes realizados por Jerry Lewis é a sua personagem embaraçada (ao contrário do “monstro” Buddy Love), uma figura que treme como gelatina perante os outros, sobretudo se tiver por perto o elemento feminino, e que tenta sair ileso do próprio caos que transporta no mundo do trabalho. Eis que surge então outra excelente variante deste género em The Patsy / Jerry Oito e Três Quartos (1964), uma sátira ao mundo do espetáculo, cinema e televisão, em que Lewis volta ao modelo de servente de hotel atrapalhado, aqui a interromper a conversa de uma equipa de produção que lida com a morte recente da sua vedeta, descobrindo, de repente, na página em branco que é esse jovem, o substituto ideal da dita estrela… A partir daí, o filme leva-nos numa sucessão de pequenos contratempos ou desastres que envolvem a falta de aptidão do escolhido, assim parodiando o que acontecia nos anos 1940/50, quando os produtores fabricavam estrelas a todo o custo.
O palhaço amargo
Entre outros filmes seus, ou dirigido por outros realizadores, como o seu preferido Frank Tashlin, Lewis manteve-se nas lides do cinema até perceber, no princípio dos anos 1970, que estava a passar de moda. Por essa altura, em 1972, realizou The Day the Clown Cried, sobre um palhaço de circo num campo de concentração nazi. Frustrado com os resultados artísticos, nunca chegou a lançar o filme, tendo doado uma cópia à Biblioteca do Congresso em 2015, na condição de só poder ser visto 10 anos depois.
No início da década seguinte, 1980, ainda se atirou à realização, com instintos autodestrutivos: em Hardly Working / Vai Trabalhar Malandro!, é um palhaço desempregado que, ao tentar encontrar trabalho, se revela consistentemente inadequado para o “emprego normal”, semeando estragos por onde quer que passe; e em Smorgasbord (1983), no título português Jerry, Tu és Louco!, a sua derradeira longa-metragem, um conjunto de gags sublinha o seu estado de arte niilista, começando numa sequência de tentativas de suicídio falhadas e passando pela hilariante e ininterrupta leitura de menu num restaurante, que é um dos mais inesquecíveis gags concebidos por Lewis, sendo ele a personagem passiva em cena.
Entre Hardly Working e Smorgasbord, mais precisamente em 1982, Martin Scorsese quis também o seu pedacinho de Jerry Lewis, convidando-o, desta feita, para assumir uma personagem com muitas marcas da própria amargura do ator naquele tempo: em O Rei de Comédia, ele é um apresentador de televisão raptado por um fã e aspirante a humorista, Robert De Niro, que só queria aparecer no seu programa… Nas mãos desse comediante desequilibrado, ouvimos então outro tipo de medo na voz de Lewis. É como se nunca o tivéssemos ouvido tão sério, tão longe da sua criança interior, a assumir-se um ser humano.
Pouco valorizado pela crítica no seu país, mas muito amado pela crítica francesa, resta saber: de onde vem Jerry Lewis, o cómico? De Chaplin? Sim. De Buster Keaton? Também. Mas talvez o seu grande modelo seja Stan Laurel, a quem se referiu, numa entrevista com Ben Mankiewicz para o TCM, como o homem que o aconselhou a nunca se sentir envergonhado, enquanto comediante. Se o que fazemos é engraçado, defende, não importa o que os outros dizem. É confiar no riso.
Inês N. Lourenço