Louise Farrenc
Louise Farrenc (DR)

Louise Farrenc

Cem Sóis a Abater

Louise Farrenc

Louise Farrenc

Cem Sóis a Abater

Louise Farrenc nasceu em Paris, a 31 de Maio de 1804, numa família de artistas, e tornou-se uma figura singular da música francesa do século XIX: pianista virtuosa, compositora, professora e investigadora. Estudou composição em privado com Anton Reicha, numa época em que as mulheres não tinham acesso às classes regulares de composição do Conservatório de Paris. Aos dezassete anos, casou com o flautista e editor Aristide Farrenc, que apoiou a sua carreira e publicou as suas obras. Em 1842, foi nomeada professora de piano naquele Conservatório, onde ensinou durante cerca de trinta anos e formou numerosos alunos premiados. O reconhecimento não lhe trouxe, de imediato, igualdade de tratamento: durante vários anos recebeu menos do que os colegas homens, até conseguir a equiparação salarial, após o grande sucesso do seu Noneto.

Num meio musical dominado pela ópera, Farrenc dedicou-se sobretudo ao piano, à música de câmara e à orquestra, conciliando a clareza formal de Mozart e Beethoven com a expressão romântica. Entre as suas obras mais importantes encontram-se as três sinfonias, compostas na década de 1840, com particular destaque para a Sinfonia n.º 3 em Sol menor, op. 36, de 1847. A música de câmara ocupa um lugar central no seu legado: os dois quintetos com piano, os trios, as sonatas para violino ou violoncelo e piano, o Sexteto para piano e sopros, op. 40, e, sobretudo, o Noneto em Mi bemol maior, op. 38, de 1849, cuja apresentação pública em 1850 contou com o jovem violinista Joseph Joachim. No repertório pianístico, a Air russe varié, op. 17, mereceu o elogio de Robert Schumann, enquanto os Trinta Estudos, op. 26, foram adoptados pelo Conservatório de Paris, reunindo exigência técnica e qualidade musical.

A morte prematura da sua única filha, Victorine, também pianista, marcou profundamente os últimos anos de Farrenc, que continuou, porém, a ensinar e a investigar. Com Aristide, iniciou Le Trésor des pianistes, uma importante antologia em 23 volumes dedicada ao repertório histórico para instrumentos de tecla, que prosseguiu após a morte do marido, em 1865. Ao recuperar obras esquecidas e estudar as práticas de interpretação dos séculos anteriores, contribuiu para uma nova atenção à música antiga. Recebeu o Prémio Chartier da Academia de Belas-Artes em 1861 e novamente em 1869, pelo valor da sua música de câmara. Morreu em Paris, a 15 de setembro de 1875. Depois de um longo período de esquecimento, a recuperação das suas partituras devolveu-nos uma compositora de voz própria, cuja carreira deixou também uma marca importante na afirmação profissional das mulheres na música.

Inês Almeida