Esta semana, na edição de Supernova, a política entra de rompante no mostruário das novidades discográficas. Música de várias geografias e géneros que, por vezes, se entreliga com outras expressões artísticas, como a literatura ou as artes plásticas.
Blood, de Nuno Côrte-Real, propõe, por um lado, uma reflexão sobre a natureza da violência na civilização humana, a partir da invasão da Ucrânia pela Rússia, na Sinfonia 2022, Op.70; e, por outro, uma história exemplar de corrupção, arrogância e redenção que remete para os grandes e recentes desaires da banca portuguesa, na Suite “Banksters” (extraída da ópera com libreto de Vasco Graça Moura a partir da peça de José Régio, Jacob e o Anjo). O álbum conta com a Sinfónica de Berlim, sob a direcção do próprio compositor (ed. Solo Musica).
Michael Foyle e Iain Burnside, dupla de violino e piano, abordam três vozes distintas da música britânica em pouco mais de um século: Elgar, Walton e Adès. Dos dois primeiros, o álbum contém uma Sonata para violino e piano; de Adès, a Suite da ópera A Tempestade, a partir da peça epónima de Shakespeare, onde se condensam, em ambiente mais intimista, os temas do amor, do aprisionamento e do poder (ed. Delphian).
O vencedor do Concurso Internacional de Piano Chopin em 2005, Rafał Blechacz, continua a explorar a tonalidade de Do menor como elo de ligação entre os compositores da 1ª Escola de Viena; desta vez, o Concerto para piano nº 24, K.491, de Mozart e o Concerto para piano nº3, Op.37, de Beethoven, exemplificam o poder e a profundidade de Do menor, que proporciona enorme riqueza harmónica, bem como grandes contrastes tonais. A acompanhar Blechacz está a Orquestra Filarmónica de Dresden, dirigida por Kent Nagano (ed. Deutsche Grammophon).
Piano Preludes é o disco onde a pianista Mo Xu percorre algumas das transformações pelas quais passou o Prelúdio para piano solo ao longo da história. Os Três Prelúdios que George Gershwin compôs em 1926 resultam do seu gosto pela fusão das formas clássicas com o jazz; os Doze Prelúdios Americanos de Alberto Ginastera (1944) enaltecem a identidade musical e cultural da Argentina enquanto trabalham uma variedade de técnicas modernas; os 24 Prelúdios, Op.28, de Frédéric Chopin (1835-39), inspirados em parte por Bach, exploram diferentes emoções, texturas, formas e desafios técnicos (ed. Dux).
A violinista Jennifer Koh usa, em American Concerto, o Concerto para violino e orquestra para ilustrar a multiplicidade das histórias americanas e da vida contemporânea nos EUA. Questionando permanentemente o jogo de relações e tensões que se estabelece entre solista e coletivo orquestral, Koh interpreta obras encomendadas ao indo-americano Vijay Iyer e à afro-americana Courtney Bryan que fazem uso de novas sonoridades, ritmos e formas, de modo a dialogar com o mundo de hoje, sempre em transformação. Iyer compôs Trouble como reflexão sobre o conceito de “good trouble”, usado pelo congressista John Lewis para explicar a pertinência da desobediência civil na luta pela igualdade e a justiça. A obra de Bryan chama-se Syzygy, em referência ao alinhamento quase retilíneo de 3 corpos celestes durante um eclipse. Cada andamento leva o nome de uma artista visual e de uma das suas obras: I. Alma Thomas: The Eclipse; II. Frida Kahlo: Tree of Hope, Keep Firm; III. Maya Ying Lin: Eclipsed Time. Koh é acompanhada pelo Ensemble de Música Contemporânea Oberlin, sob a direção de Timothy Weiss (ed. Çedille).
Inês Almeida
