Música, poesia e literatura
Camargo Guarnieri

Música, poesia e literatura

Supernova

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Supernova

A edição de Supernova desta semana revela, como habitualmente, uma panóplia de novidades discográficas, algumas com ligações à literatura – da poesia brasileira e à vida aborígene australiana -, outras de grandes compositores como Bach e Bruckner, e finaliza com um álbum dedicado à música para violino e piano de compositoras  do romantismo e modernismo.

Esta semana, Supernova começa com um disco que explora a fértil amizade e colaboração de Camargo Guarnieri com o poeta, escritor e musicólogo Mário de Andrade. Tal como escreveu Sarah Tyrrell, o modernismo na música brasileira apelava à convergência de dois imperativos criativos: a renovação das práticas composicionais através da adaptação de técnicas existentes e a incorporação de elementos nativos, para melhor alinhar o repertório erudito com a herança híbrida do Brasil. Andrade transmitiu a Guarnieri a importância de perpetuar as tradições musicais de uma cultura imensamente variada e o compositor deu corpo a esse pensamento com uma obra enfática na qual o folclore brasileiro é enformado no idioma europeu neo-clássico. No programa do disco da Orquestra Sinfónica Municipal de São Paulo, com um quarteto de vozes solistas, o Coro Paulistano e a direção de Roberto Minczuk, estão reunidas peças vocais de Guarnieri compostas sobre poemas que Andrade escreveu especificamente para o efeito, ou sobre poemas que o compositor selecionou posteriormente para celebrar a parceria entre os dois: a ópera cómica Pedro Malazarte, as canções Louvação do amor êtê e Rondó do eco e do descorajado, a peça vocal-orquestral A Serra do Rola-Moça e os Quatro Poemas de Macunaíma (ed. Naxos).

O berlinense Ludger Vollmer, nascido em 1961, é considerado um dos principais compositores de ópera dos países germanófonos, a sua obra atravessa géneros e formas musicais e a sua atividade extravasa a composição. Desafiado pela Staatskapelle Weimar a escrever um concerto, Vollmer sentiu que era a sua oportunidade de afirmar a natureza e as motivações do seu universo musical através de uma obra de «música absoluta», não baseada em qualquer texto. No início do processo criativo esteve uma pequena fórmula melódica de seis notas — um núcleo — que se revelou ao compositor como a imagem de uma gaivota a sobrevoar as águas de Hamburgo. Dessa semente nasceu um Concerto para violino solo e grande orquestra, retirando toda a sua energia da fórmula inicial. A arquitetura composicional da obra assenta em três pilares: escalas modais (portadoras de significado emocional), uma combinação rítmica com grande energia de dança (inspirada nos Balcãs e em África) e, finalmente, a técnica antiga da centonização (ainda presente em certas tradições orientais) — a composição de fórmulas melódicas que não são ritmicamente fixas e, por isso, possuem enorme flexibilidade. Ao longo de quatro andamentos, Vollmer criou uma linguagem musical nova e poderosa, baseada em heterofonia, técnica de mistura e modulação melódica. O solista é Gernot Süssmuth e o maestro é Dominik Beykirch (ed. Audite).

A organista japonesa Kei Koto está a gravar, para a editora Claves, um magnífico ciclo dedicado à obras-primas para órgão de J. S. Bach. O 6º volume, acabado de sair, foi registado no órgão J.C. Wiegleb de Ansbach e contém composições livres de diferentes estilos, prelúdios & fugas, uma fantasia, bem como corais de diversas formas, comparáveis, segundo a intérprete, às obras vocais nas quais se refletem, tanto a vida espiritual, como a pesquisa especulativa do compositor. A Fantasia, BWV 572 é, nas palavras de Koto, um testemunho sublime do jovem Bach em Weimar. O Prelúdio e a Fuga, em Do m, BWV 546 não foram escritos no mesmo período; o Prelúdio conjuga elementos de natureza vocal e uma escrita densa puramente instrumental; a Fuga a 5 vozes deverá ter sido composta em Weimar, por volta de 1715 e é uma prova de destreza polifónica. Estão ainda presentes no álbum: Prelúdio & Fuga, Do m, BWV 545; Fuga em Do m, BWV 575; 6 Corais “Schübler”, BWV 645-650; Variações canónicas sobre “Vom Himmel hoch, da komm’ich her”, BWV 769a; e 3 versículos sobre o Magnificat — BWV 648 (“Schübler” N.4), BWV 733 e BWV 243/10 (ed. Claves).

O maestro Dennis Russell Davies encetou a gravação das Sinfonias de Anton Bruckner, nas suas versões originais, à frente da Orquestra Sinfónica da Rádio da Alemanha Central. A viagem começa com os primeiros esboços sinfónicos do compositor austríaco e estende-se até às últimas e monumentais obras — um projecto ambicioso realizado em parceria com a editora Genuin, que fez já o lançamento digital do álbum com a Sinfonia nº 1, Do m, “versão de Linz”, de 1865-66. Durante o período em que compôs a esta sinfonia, Bruckner sofreu um esgotamento nervoso do qual só recuperou em 1868, ano em que dirigiu a obra à frente da orquestra do Teatro de Linz. O evento recebeu pouca atenção, apesar do sucesso junto da audiência. Apenas duas críticas tiveram publicação nos jornais, acusando o compositor de exibicionismo. É provável que essas reações tenham estado na origem do processo de revisão da partitura levado a cabo por Bruckner nos anos seguintes, como aconteceu em 1877 e 1884. Nessa altura já estava em Viena, daí que a derradeira revisão, concluída em 1891, se designe “versão de Viena”. Entre as duas versões há diferenças consideráveis a nível de instrumentação, material melódico e harmónico e estrutura musical. A versão de Linz só foi publicada 40 anos após a de Viena e, como tal, teve dificuldade em impor-se, mas atualmente vai sendo cada vez mais tocada e apreciada (ed. Genuin).

Tem lançamento oficial previsto para 24 de Julho o disco com as Sinfonias n.os 2 e 3 e o Concerto para violoncelo “Songline” do compositor inglês John McCabe, falecido em 2015. São obras substanciais da sua produção, escritas entre 1970 e 2007, refletindo orientações-chave do seu pensamento musical. O estilo de escrita de McCabe evoluiu gradualmente de um certo construtivismo lírico, passando por uma fase serialista, até uma combinação mais complexa de processos para alcançar a continuidade formal. De qualquer modo, as obras da maturidade caracterizam-se pelo pós-tonalismo dramático e as orquestrações vívidas vertidos num discurso íntegro e acessível. O Concerto para violoncelo tem o subtítulo “Songline” devido ao livro de Bruce Chatwin sobre as canções dos aborígenes australianos e a sua ligação à vida nómada (The Songlines, 1987). McCabe representou os mitos criacionistas aborígenes no Adagio central da obra através, sobretudo, de pequenas combinações instrumentais correspondentes aos seres ancestrais que, ao cantarem, deram origem ao mundo. A obra é interpretada pelo violoncelista Raphael Wallfisch, com a Orquestra Sinfónica Nacional Escocesa da BBC, sob a direção de Kenneth Woods (ed. Signum).

A finalizar esta edição de Supernova, o destaque a Ladies First, álbum que reúne obras para violino e piano de mulheres compositoras, numa seleção da violinista suíça Rachel Kolly e da pianista indiana Pallavi Mahidhara. De Clara Schumann a Nadia e Lili Boulanger, passando por Amanda Maier, Mel Bonis, Amy Beach, Rebecca Clarke e Dora Pejačević, este é um retrato de diferentes gerações do romantismo e do modernismo musical no feminino, sem necessidade alguma de comparações com compositores homens, pois são obras que falam por si mesmas, são a sua própria medida de beleza e grandeza e sustentam-se pelos próprios méritos, para lá de modas passageiras (ed. Indésens).
Inês Almeida