Steve Reich é o nome em destaque no primeiro episódio de O Nosso Tempo, uma série dedicada a grandes músicos do final do século XX e do século XXI. No segundo episódio estará em foco o compositor britânico John Tavener.
Nasceu em Nova Iorque, a 3 de outubro de 1936, numa família judaica com ascendência na Polónia e na Hungria. A mãe escrevia letras para teatro musical e também cantava. E, sem surpresa, a música entrou na vida do pequeno Steve Reich bem cedo, com aulas de piano, embora a princípio sem grande entusiasmo. A mudança de atitude chegou depois, quando descobriu Bach, Stravinsky e, o jazz, em particular a música de John Coltrane. E convenhamos que Steve estava então na cidade certa e na altura certa para viver, nesses dias de juventude, uma etapa vibrante da história do jazz.
E mergulhou a fundo. Primeiro na Juilliard, onde teve Philip Glass como colega, e depois no Mills College, na Califórnia. Estudou com Luciano Berio ou Darius Milhaud, colaborou com figuras das novas vanguardas, desde Pauline Oliveros até Morton Subotnik e acabou a trabalhar ao lado de Terry Riley, tendo estado directamente ligado à estreia mundial do hoje histórico In C, que é uma das peças basilares do minimalismo.
A proximidade com Terry Riley e a recente descoberta da música africana, particularmente a sua riqueza rítmica, abriram horizontes de descoberta. E ajudaram Steve Reich a encontrar um caminho, que refletiu também, entre as suas primeiras composições, os ecos de um tempo em que as tecnologias de gravação estavam a servir a própria criação musical… E assim surgiu It’s Gonna Rain, que nasceu de uma gravação feita meses antes, na Union Square em São Francisco, escutando as palavras de um pregador… Logo depois, a mesma ideia, com uma nova gravação como ponto de partida, criou Come Out.
Tanto It’s Gonna Rain como Come Out resultavam de trabalhos de manipulação de gravações, nos quais Steve Reich criou e explorou, pela primeira vez, o conceito de “phasing”. Em linhas simples, este conceito tem a ver com o facto de dois músicos (ou dois gravadores, como neste caso) partirem de posições iniciais em uníssono. Depois um deles vai atrasando o “tempo”, neste caso, colocando as frases numa situação de progressivo “desencontro”, podendo depois, eventualmente, regressar-se a um ponto em que voltamos a ouvir ambas em “fase”…
O conceito de “phasing” marcava uma expressão de demanda pessoal. E com essa visão somada ao que entretanto se escutava vindo de La Monte Young, de Terry Riley e de Philip Glass, o compositor estava a ajudar a lançar os alicerces para uma nova música a que pouco depois se convencionou chamar… minimalismo. Era uma música que começava a atrair atenções em performances organizadas em espaços diferentes, como o Whitney Museum ou o MoMA, ambos em Nova Iorque, onde Drumming foi ouvido pela primeira vez…
Esta foi a primeira obra de grande fôlego de Steve Reich. E Drumming, apesar de tida como uma obra de transição, é uma peça central na história do compositor. E garantiu-lhe visibilidade numa etapa em que, através de gravações em disco e de atuações em salas cada vez maiores e mais espalhadas pelo mundo, dele fizeram um dos nomes maiores da música do nosso tempo.
Nuno Galopim