Esta nova edição de Supernova explora caminhos da diáspora italiana na Argentina, de Vivaldi a Piazzolla e focalizando-se na figura de Maria, símbolo maior feminino; de Inglaterra vem uma nova abordagem do período musical henriquino e desses tempos conturbados; e atravessando o Canal do Norte, encontramos vários compositores contemporâneos irlandeses e a sua música para violino e orquestra. Do Mar do Norte, escuta-se a integral dos Quartetos para cordas de Peter Arnold Heise, e atravessando o Atlântico, vai-se ao encontro do sonho americano, com o tema da feira e parque de diversões, em música que vai de Copland a Gershwin. Por fim, num eterno retorno, voltamos a Veneza e a Vivaldi, mas desta vez na sua ligação à cidade de Praga e a influência na geração seguinte de compositores checos.
Esta semana, a primeira proposta de destaque no Supernova é a viagem musical empreendida por Andrés Gabetta (violino e direção), Veronica Cangemi (soprano), Mario Stefano Pietrodarchi (bandoneón e acordeão) e Gabetta Consort, em De Viena a Buenos Aires, uma possível rota pelo repertório italiano através dos séculos e dos continentes, desde os concertos de Vivaldi até à ópera-tango de Piazzolla. Por outro lado, o álbum é, também, um tributo às mulheres, tendo a figura de Maria como fio condutor. Maria tanto pode ser o nome – ou parte do nome – de uma dedicatária, como pretexto para incluir árias destinadas a vozes femininas, ou peças evocativas da mãe de Jesus.
Para os músicos, era importante iluminar a grande diáspora italiana entre 1880 e 1930, que levou milhões de pessoas a deixar a sua terra de origem e a rumar às Américas – norte e sul, nomeadamente a Argentina -, levando consigo a língua, a religião e a herança artística.
Emergindo da Veneza do século XVI, estão dois Concertos para violino de Antonio Vivaldi: o RV 213, Re M, “Per Anna Maria”; e o RV 208, Re M, “Il Grosso Mogul”. O jovem Astor Piazzolla cresceu em Buenos Aires e Nova Iorque, rapidamente tornou-se mestre do bandoneón e, mais tarde, estudou com Ginastera e N. Boulanger. Desse percurso nasceu uma música que cruza tradições argentinas e espanholas, jazz e escolas eruditas: o Nuevo Tango. E daí nasceu a ópera-tango Maria de Buenos Aires, da qual o disco contém arranjos de Allegro dell’alba tangabile e Milonga da Anunciação. As restantes obras são de Luca Salvadori, Giovanni Bononcini e Leonardo Vinci (ed. PentaTone).
Outro dos álbuns temáticos em destaque é Troubled Times: Música e Espionagem na Inglaterra Renascentista. Partindo dos compositores ativos no momento em que Henrique VIII arquitetou a separação da Igreja Anglicana da de Roma, o coro The Queen’s Six e o Rose Consort of Viols exploram o fascinante período musical, recheado de conflitos religiosos e políticos, que resultou do pedido do monarca, em 1527, ao papa Clemente VII, para que anulasse o seu casamento com Catarina de Aragão. A divisão entre reformistas protestantes e tradicionalistas católicos definiu o século XVI em Inglaterra e a música tornou-se alvo de escrutínio estrito pelas autoridades.
Os compositores encontraram muitas maneiras de lidar com os desafios: John Wilbye e Martin Peerson optaram pelo não-conformismo, Peter Philips e Richard Dering por mudar de país, enquanto John Bull, Thomas Morley e Alfonso Ferrabosco I (que também viajaram), ficaram suspeitos de espionagem para Isabel I, a responsável pela aprovação parlamentar do Acto de Uniformidade, em 1558, estabelecendo o Protestantismo anglicano como religião oficial do território e determinando modos de oração, devoção e administração dos sacramentos. É o pano de fundo para uma colecção musical que tem forçosamente de enfatizar o repertório sacro, no qual a língua vernácula e a sua clareza no canto são cruciais. Para além de obras dos compositores já mencionados, o álbum também inclui outras de John Taverner, Richard Sampson, Alfonso Ferrabosco II e, finalmente, William Byrd (ed. Signum).
Nova Música para Violino e Orquestra na Irlanda do Norte é um projeto do violinista irlandês Darragh Morgan, que decidiu reunir em disco quatro concertos escritos para si ao longo das duas últimas décadas, por Frank Lyons, Brian Irvine, Bill Campbell e Ryan Molloy. As parcerias entre Morgan e vários compositores contemporâneos da Irlanda têm sido uma constante, cuja principal virtude é adicionar riqueza a um repertório já de si diverso, contemplando transformações eletrónicas, ritmos de inspiração folclórica, introspeção lírica e passagens virtuosísticas. Cada obra revela um mundo sonoro distinto: Swim, de Campbell, estreada em 2006; À mon seul désir, de Irvine, em 2014; Spin 3, de Lyons, estreada em 2025; e Concerto para violino, de Ryan Molloy, estreado em 2016. Darragh Morgan é acompanhado pela Orquestra do Ulster, sob a direção de David Brophy (ed. Resonus).
Em visita à Dinamarca do séc. XVIII, descobre-se, com o Nordic String Quartet, a integral dos Quartetos para cordas de Peter Arnold Heise, compostos entre 1852 e ’57. Apesar de ter sido um compositor muito popular e acarinhado, não se livrou da quase total obscuridade após a morte, em 1879, com apenas 48 anos. Estava no pico da carreira e tinha, pouco antes, obtido grande sucesso com a ópera Rei e Marechal, possivelmente a melhor da cena dinamarquesa desse século. Muito bem recebidos foram, também, os romances e canções que Heise compôs às centenas para serem tocados em ambiente privado.
Quando os manuscritos dos quartetos para cordas foram devolvidos à viúva de Heise por um bibliotecário da Real Biblioteca Dinamarquesa, ela arquivou-os na secção “música da juventude”, sem intenção de os dar a publicação. Por isso, quando Vilhelmine Heise morreu, o público não sabia da sua existência. Alguns começaram a circular, em cópias, a partir de 1950, mas só em 2017 é que foi feita a edição comercial, fruto de uma colaboração entre a RBD e a Universidade de Copenhaga. O conjunto revela grande maturidade, surpresas rítmicas, humor, elegância e vivacidade, caminhando gradualmente para uma linguagem romântica devedora de Beethoven, Schubert e Mendelssohn.
Em An American Dream?, a maestra Barbara Hannigan explora o conceito de ‘sonho americano’ e diz que, com o álbum onde dirige a Orquestra Sinfónica de Gotemburgo, pretende expressar a sua admiração “pela incrível criatividade e tenacidade dos compositores que deram forma a uma linguagem musical verdadeiramente sua” e original. O tema agregador entre as peças do repertório é o da feira – o parque temático, ou de diversões. Surge na capa do disco, representado por um carrossel parado com um dos cavalos em grande plano. Perscrutando a imagem mais atentamente, percebe-se que o carrossel está envolto numa quase penumbra e o piso está cheio de grandes fendas. A mensagem de Hannigan é a de uma mistura inquietante de nostalgia e memória com escuridão e destruição.
Assim é, também, o programa musical: Porgy and Bess, de Gershwin, reinventada em A Symphonic Picture, de Robert Russell Bennett; Carousel, o musical de Rodgers e Hammerstein, do qual Don Walker fez o arranjo da abertura, intitulada A Valsa do Carrossel; At the Fair, fruto do trabalho conjunto de Hannigan e do compositor e arranjador Bill Elliot, em torno de uma plêiade de canções e temas americanos; mas o disco começa com a extraordinária e vibrante Dance Symphony que Aaron Copland compôs em 1929, retrabalhando 3 danças escritas para o bailado Grohg, inspirado pelo filme Nosferatu, de Murnau (ed. Alpha).
Último destaque para Vivaldi em Praga, da Harmonious Society of Tickle-Fiddle Gentlemen, sob a direção de Robert Rawsone com a soprano convidada, Hana Blažíková. O início da história é o ano de 1718, quando o conde Wenzel von Morzin viajou de Praga a Veneza com a sua “virtuosíssima orquestra” e contratou Vivaldi como “maestro di musica” italiano. A partir de então, floresceu uma amizade musical entre Veneza e Praga, que marcou indelevelmente toda uma geração de compositores checos, incluindo os que são revelados no disco.
As facetas de Antonio Vivaldi, “o virtuoso”, e “o compositor de ópera”, estão refletidas em concertos, arranjos de árias de ópera (e um moteto) do próprio compositor veneziano, bem como de Antonín Reichenauer, František Jiránek e František Antonín Míča (ed. Accent).
Inês Almeida
