Considerada como uma das obras mais importantes do nosso tempo, a última ópera da compositora finlandesa Kaija Saariaho sobe ao palco do Met, sob a direção de Susanna Mälkki, e nos papéis principais as sopranos Jacquelyn Stucker e Kathleen Kim e a mezzo-soprano Joyce DiDonato. Uma obra envolvente e algo controversa, cuja história não tem um final, refletindo a realidade em tempos de paz frágil.
Temporada Metropolitan Opera
de Nova Iorque
25 abril | 18h00
Kaija Saariaho | Inocência
Retratando a vasta rede de traumas deixada após um tiroteio numa escola, a última ópera da saudosa e genial compositora finlandesa Kaija Saariaho (1952–2023) é um grito de socorro cru e implacável em resposta à violência sem sentido da nossa era moderna.
Cativante com o seu universo sonoro misterioso e de uma beleza sombria, e com diversos estilos vocais, que vão da ópera tradicional ao expressionista canto falado e à música folclórica escandinava, Inocência (Innocence), com libreto da prestigiada autora finlandesa Sofi Oksanen e de Aleksi Barrière, foi recebida com críticas entusiastas na sua estreia em 2021 e aclamada como “completamente revigorante” (The New York Times) e “uma obra-prima moderna” (The Telegraph).
Na sua estreia no Met — na poderosa direção original de Simon Stone —, o elenco firma-se na mezzo-soprano Joyce DiDonato e na cantora finlandesa de etno-pop Vilma Jää, enquanto mãe enlutada e filha que perdeu no tiroteio, para além da soprano Jacquelyn Stucker e do tenor Miles Mykkanen, como o jovem casal cujo casamento, uma década após a tragédia, revela segredos enterrados e reabre feridas antigas. A maestrina Susanna Mälkki, amiga próxima e colaboradora de Saariaho, dirige o que designa de “uma das obras mais importantes de nosso tempo”.
Esta ópera em cinco atos foi uma co-encomendada pelo Festival de Aix-en-Provence, pela Ópera Nacional Holandesa, pela Ópera Nacional Finlandesa e pela Ópera de São Francisco. Teve a sua estreia mundial em 3 de julho de 2021 no Festival de Aix-en-Provence, regida por Susanna Mälkki e dirigida por Simon Stone.
Inocência passa-se na Helsínquia contemporânea, e acompanha duas linhas narrativas. Numa narra os eventos de um massacre numa escola internacional, enquanto a outra, uma década depois, passa-se no casamento do irmão do autor do crime. Simultaneamente, vítimas do massacre compartilham as suas lembranças do ataque e comentam sobre as suas lutas para superar o trauma que causou nas suas vidas.
A trama começa no copo de água. Uma empregada de mesa aceitara o trabalho sem saber de quem era o casamento – e descobre que o noivo é irmão do rapaz que matou a sua filha adolescente e várias outras pessoas num tiroteio numa escola, uma década antes. A família também escondeu esse segredo da noiva. Mais segredos vêm à tona à medida que os eventos daquele dia terrível são revelados, camada por camada.
À primeira vista, Inocência assemelha-se a um thriller ou mistério moderno, com informações reveladas aos poucos e a partir de diferentes pontos de vista. A um nível mais profundo, Saariaho e os seus colaboradores oferecem uma abordagem diferenciada de um problema que continua a assolar a sociedade contemporânea, enfatizando histórias humanas comoventes em detrimento do didatismo.
O título da ópera é uma referência à juventude das vítimas e alude aos vários graus de culpa coletiva entre os sobreviventes e uma sociedade que permite que tais atrocidades continuem a acontecer.

Apesar do tema delicado, a partitura de Saariaho para Inocência rejeita efeitos dramáticos sensacionalistas ou óbvios em favor de uma paisagem sonora convincente e evocativa que combina, de forma harmoniosa, melodia, ritmo, ruído, canto e texto falado/gritado.
Os convidados do casamento variam de baixo grave a soprano coloratura e cantam num estilo operático mais ou menos tradicional. Os personagens da escola incluem cinco atores que falam em vários idiomas, assim como a Professora, que se comunicam principalmente num canto falado (sprechstimme), e Markéta, um papel escrito para uma indígena cantora fino-úgrica.
A orquestra inclui cordas, predominância de sopros, piano e uma ampla gama de percussão. Saariaho frequentemente recorre à percussão em momentos-chave, como quando uma batida de tambor pulsante e recorrente evoca os tiros fatais que ecoam através do tempo e da memória.

Transmissão em direto
a partir de The Metropolitan Opera de Nova Iorque
Realização e Apresentação: André Cunha Leal
Produção: Susana Valente

Ficha técnica
Noiva: Jacquelyn Stucker (S)
Sogra: Kathleen Kim (S)
Criada: Joyce DiDonato (MS)
Noivo: Miles Mykkanen (T)
Sogro: Rod Gilfry (BT)
Coro e Orquestra do Metropolitan
Direção de Susanna Mälkki

Fotos Met Opera