A assinalar o centenário de Roger Corman (1926-2024), realizador e lendário produtor de filmes de série B, Inês N. Lourenço segue os vestígios do macabro na sua obra, com particular destaque para o conjunto de adaptações de Edgar Allan Poe que se tornaram títulos de culto, fazendo do ator Vincent Price um sofisticado representante do terror segundo Corman.
Neste especial da RTP Antena 2, ouve-se ainda a entrevista feita ao próprio Roger Corman, em 2017, quando foi homenageado em Lisboa, no Festival Motelx.
Responsável pelo lançamento de grandes nomes como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Peter Bogdanovich, Jonathan Demme, Jack Nicholson ou Robert De Niro, Roger Corman foi o rei da série B, como escreveu João Bénard da Costa, um homem com “decisiva influência em tudo ou quase tudo o que se passou em Hollywood de há [50] anos para cá”. Este gigante norte-americano completaria 100 anos no dia 5 de abril – faleceu em 2024 –, e por duas vezes foi recebido em Lisboa: uma na Cinemateca, em 2007, justamente com o então diretor João Bénard da Costa a apelidá-lo de “anjo selvagem de Hollywood”, na retrospetiva que justificou a sua visita; outra em 2017, no Festival MOTELX, que homenageou a lenda com 91 anos, na secção “culto dos mestres vivos”, altura em que o entrevistámos.
Nascido em Detroit em 1926, e formado em engenharia na Universidade de Stanford, Roger Corman estudou ainda literatura inglesa em Oxford e viveu uns meses em Paris, já depois de passar brevemente pelos estúdios Century-Fox como moço de recados. Regressou, de novo, às lides da indústria na qualidade de argumentista, e daí transitou para o domínio da produção.
No início da década de 1950, realizou westerns e trilhou o imaginário da ficção científica em produções rápidas e muito baratas, que lhe deram treino – misturando-se aí as facetas de cineasta e produtor independente –, mas é nos anos 1960, desde logo com o filme A Loja dos Horrores, que Corman salta à vista e prova ter a máquina bem oleada para se dedicar a um ciclo de oito adaptações de Edgar Allan Poe, escritor da sua predileção, que originou um autêntico projeto criativo, razão principal do reconhecimento, junto da crítica, deste produtor que era, no fim de contas, também um autor.
A Queda da Casa Usher (1960) foi a primeira dessas adaptações, seguida de O Fosso e o Pêndulo (1961), Sepultado Vivo (1962), A Maldita, o Gato e a Morte (1962), O Corvo (1963), O Palácio Maldito (1963), A Máscara da Morte Vermelha (1964) e O Túmulo de Ligeia (1964), quase todos filmes com Vincent Price como protagonista, em refinadas poses entre a assombração e o humor perverso.
Pelo meio dos castelos, tumbas e terror gótico, que ocuparam a primeira metade dos anos 1960 na sua filmografia, Corman realizou também um drama político de que muito se orgulhava: chama-se The Intruder, é de 1962, e tem William Shatner no papel de um indivíduo carismático, de extrema-direita, que vai a uma pequena cidade do Sul dos Estados Unidos pregar a sua ideologia racista, enquanto “reformador social”, como se autointitula. Muito aplaudido pela crítica, este foi o único filme que não deu lucro a Roger Corman, facto que lembrava muitas vezes…
Realizador de dezenas de títulos, mas sobretudo produtor de mais de quatro centenas, Corman foi o mestre das películas feitas com meia dúzia de dólares, num par de dias, com recursos mínimos e êxito garantido. Não por acaso, o título da autobiografia, publicada em 1998, traduz-se assim: “Como Fiz Centenas de Filmes em Hollywood sem Perder um Tostão”.
Inês N. Lourenço