Poucos minutos antes do anúncio pela Academia Sueca em que revelaria o nome do autor escolhido, a RTP Antena 2 emitia no seu programa A Vida Breve de Luís Caetano, um poema escrito e dito por Anne Carson.
E coincidência, ou talvez não, o Nobel da Literatura foi mesmo para a escritora canadiana, também com nacionalidade islandesa, Anne Carson, uma das vozes mundialmente conhecida das mais singulares e inovadoras da literatura contemporânea.
A Ronda da Noite percorre alguns percursos de Anne Carson, com Luís Caetano dando a escutar mais a poesia da escritora, em voz própria, e também a sua desconcertante reação ao ser contactada pela secretária da Academia Sueca para lhe comunicar a atribuição: estava “na Islândia, a ouvir o vento”.
Neste episódio, ainda uma conversa com o editor João Concha, das não (edições), que publicou 5 livros da escritora canadiana.
Anne Carson nasceu em Toronto, na Canadá a 21 de junho de 1950. Reconhecida poeta, ensaísta, tradutora e professora de estudos clássicos canadiana, foi galardoada com Prémio Nobel da Literatura de 2026. Segundo a Academia Sueca, o galardão foi-lhe atribuído pela sua “obra ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”.
Doutorada em Estudos Clássicos, Carson destaca-se por desafiar e quebrar as fronteiras entre os géneros literários, misturando poesia, prosa, crítica literária, ensaio académico e tradução de textos da Antiguidade Grega (como Safo, Eurípides e Sófocles).
Ao longo da sua carreira, lecionou em prestigiadas instituições como a Universidade McGill, a Universidade de Michigan e a Universidade de Princeton.
Ao longo da sua carreira recebeu distinções de relevo. Foi a primeira mulher a vencer o prestigiado prémio de poesia, T.S. Eliot Prize. Foi agraciada com a prestigiada MacArthur Fellowship (conhecida como a “bolsa dos génios”) em 2000, e a Guggenheim Fellowship em 1998. Recebeu o importante Prémio Princesa das Astúrias de Literatura, num reconhecimento internacional pelo conjunto da sua obra.
O seu primeiro grande ensaio lírico é Eros the Bittersweet (1986), considerado um dos 100 melhores livros de não-ficção de sempre pela Modern Library, e que explora a natureza do desejo a partir de fragmentos poéticos da Grécia Antiga.
Referenciado por muitos críticos como a sua obra-prima, Autobiografia do Vermelho (Autobiography of Red, 1998), é um romance em versos que recria o mito grego do monstro Gerião, transformando-o num adolescente moderno que vive uma história de amor complexa com Hércules. Está publicado em Portugal, com tradução de João Concha e Ricardo Marques, pelas não edições (2017).
Outras traduções da sua obra editadas em Portugal são:
– A Beleza do marido, com tradução de Tatiana Faia, não edições, 2019
– Vidro, Ironia e Deus, com tradução de Tatiana Faia, não edições, 2021
– Antigotriz, com tradução de Isabel Lopes, Companhia das Ilhas, 2023 [peça de teatro levada à cena pelo ARRE – Teatro da Rainha, com encenação de Fernando Mora Ramos]
– Eros, amargo e doce: um ensaio, com tradução de Tatiana Faia, Edições 70, 2024
– Águalisa, com tradução de Rui Cascais Parada, não edições, 2025
– Homens nas Horas Vagas, com tradução de Rui Cascais Parada, não edições, 2026
A sua escrita explora temas profundos e universais como o desejo (eros), o amor, a ausência, o corpo e o luto. E formalmente rompe barreiras entre géneros, a sua poesia é ensaística e narrativa, os seus ensaios contêm por vezes associações líricas e poéticas, desafiando as classificações literárias tradicionais. Além disso, temporalmente também imprime fluidez; enquanto especialista em literatura grega antiga, transporta os mitos do passado para o tempo presente, na sua escrita poética.
Anne Carson é a 123.ª laureada, 19.ª mulher galardoada com o Nobel da Literatura que é concedido desde 1901.
