Mafalda Serrano, em Banda Sonora desta semana, revisita Alice, no ano da sua maioridade simbólica. O filme-estreia do realizador Marco Martins, premiado no Festival de Cannes, conta com a música de Sassetti que desempenha um papel fundamental na narrativa, pela melancolia, persistência e esperança.
24 abril | 21h00
Alice (2005)
Realização: Marco Martins
Música: Bernardo Sassetti
21 Anos do filme Alice de Marco Martins com música de Bernardo Sassetti
Bernardo Sassetti (1970-2012) é um autor ímpar no âmbito da música contemporânea portuguesa, com percurso notório na composição de música para cinema.
No filme Alice realizado por Marco Martins e estreado em 2005 — atingindo, assim, a sua maioridade simbólica em 2026 — a escrita e o pensamento de Sassetti transfiguram a cidade de Lisboa num espaço de errância ontológica: um território onde a visibilidade é incessantemente procurada, mas onde a presença de uma criança e o lugar do amor são irremediavelmente furtivos.
O filme é dedicado a Filomena Teixeira, mãe de Rui Pedro, o menino de Lousada desaparecido em 1998, com onze anos. A obra parte do impacto de uma história verídica – centrada na busca obsessiva de um pai pela filha desaparecida — e evolui numa topografia de repetição, feita de vigilância e ausência, onde cada gesto se converte em vestígio e cada imagem, como cada nota ou acorde, na hipótese de falha e redenção.
Yuri Daniel e Rui Rosa percorrem com Sassetti os lugares de uma cidade habitada pela poética ambivalência entre o amor e a incompletude: cada motivo musical parece procurar, como o próprio enredo, um centro ausente e a possibilidade de reparação.
Celebrar Alice com a inesquecível interpretação de Beatriz Batarda (Luísa) e Nuno Lopes (Mário) decorridos agora vinte e um anos sobre a sua estreia e sobre a banda sonora de Bernardo Sassetti, é honrar uma das mais altas formas de simbiose entre cinema e composição no panorama nacional.
Mafalda Serrano