No âmbito do Compositor do Mês – Mozart, o programa O Canto do Blues evoca o pianista Jimmy Yancey, no episódio de 10 de janeiro emitido pelas 23h00.
Jimmy Yancey era chamado de “Mozart do Blues” pelo estilo ao piano duma simplicidade aparente, mas sofisticado e elegante, especialmente nos padrões únicos de baixo na mão esquerda (o “baixo Yancey”) e a sua abordagem melódica e contrapontística, que traziam um refinamento quase clássico ao boogie-woogie.
É um contraste gigante com o estilo cru e intenso de outros pianistas boogie-woogie, demonstrando grande controlo e musicalidade dentro de uma estrutura limitada, mas hipnótica.
A comparação com Mozart e não com qualquer outro compositor, realça a capacidade de Yancey para alcançar uma profunda musicalidade e elegância estrutural através do que parecia ser uma simplicidade, muito semelhante ao domínio de Mozart sobre a forma e a melodia.
Yancey transforma elementos básicos do blues e do boogie-woogie em algo distintamente pessoal, controlado e belo, o que lhe garante o reconhecimento como um mestre que eleva este género musical do boogie woogie ao do período clássico da História da Música.
Enquanto o boogie-woogie era frequentemente rítmico, a forma de tocar de Yancey era mais tranquila, refinada e musicalmente delicada, focando-se em menos notas com maior impacto.
A música apresentava uma interação sofisticada entre as mãos, criando texturas ricas a partir de elementos aparentemente simples, uma marca da sua técnica refinada.
Era também marcado por minimalismo e repetição: o repertório limitado e os padrões repetitivos de Jimmy Yancey criavam uma música hipnótica e dinâmica, construindo sentimentos intensos com notas e variações cuidadosamente colocadas. Tinha ainda espaços vazios: utilizava com mestria pausas e momentos de respiração para realçar o ritmo e a melodia. Quanto à musicalidade, as peças elevam as formas tradicionais do blues com ideias melódicas sofisticadas, quase clássicas.
Ficou famoso também pelos finais invulgares, por terminar muitas peças na tonalidade de mi bemol, independentemente da tonalidade inicial, o que contribuía para a sua visão peculiar.
O seu estilo é bem exemplificado pelo tema Yancey’s Bugle Call: tem a sonoridade clássica do boogie-woogie de Chicago, é uma peça vibrante, mas graciosa, combinada com o groove cadenciado, rítmico e agradável, característico de Yancey.
André Pinto