Neste domingo, dia 9 de agosto pelas 16h00, a RTP Antena 2 prossegue as transmissões do 11º Festival Internacional de Música de Marvão. Este concerto foi gravado a 24 de julho de 2025, na vila alentejana de Marvão.
9 Agosto | 16h00
Gravação pelo FIMM,
a 24 de Julho 2025,
na Igreja de São Tiago, em Marvão
Concerto Olivier Messiaen
Christoph Poppen, violino
Aurélien Pascal, violoncelo
Horácio Ferreira, clarinete
Silke Avenhaus, piano
Programa
Olivier Messiaen (1908–92) – Quatuor pour la fin du Temps
Liturgie de cristal
Vocalise, pour l’Ange qui annonce la fin du Temps
Abîme des oiseaux
Intermède
Louange à l’Éternité de Jésus
Danse de la fureur, pour les sept trompettes
Fouillis d’arcs-en-ciel, pour l’Ange qui annonce la fin du Temps
Louange à l’Immortalité de Jésus
Com guerras a alastrar pelo mundo e o poder bruto a tornar-se instrumento das nações nucleares para imporem a sua vontade, esvaziarem as liberdades civis e ameaçarem o direito à autodeterminação dos povos, pode ser tentador ver o Quatuor pour la fin du Temps de Messiaen como o anúncio do fim da civilização humana.
Mas Messiaen tinha outra coisa em mente. A sublime obra de oito andamentos é uma expressão musical da eternidade — um estado em que não existe passado nem futuro, ou seja, um estado divino, talvez paradisíaco, além do tempo.
Olivier Messiaen (1908–1992) foi recrutado como enfermeiro para o exército francês no início da Segunda Guerra Mundial, acabando por ser capturado pelos alemães. Apesar das condições horríveis — 50.000 pessoas a partilhar barracões concebidos para 500, um inverno rigoroso, roupas inadequadas, má alimentação e falta de higiene — Messiaen conseguiu conquistar a simpatia de um guarda alemão que lhe forneceu papel de música, um lápis e uma borracha para compor.
A obra foi escrita para os instrumentistas disponíveis no campo: os seus companheiros de cativeiro — um clarinetista, um violinista, um violoncelista — e ele próprio, pianista. Três dos andamentos já haviam sido compostos antes da guerra; os outros cinco foram concebidos no campo, onde toda a obra foi estreada em Janeiro de 1941.
O Quatuor é, antes de mais, uma manifestação da fé inabalável de Messiaen. O seu amor pelas aves (criaturas celestes), fio condutor de toda a sua obra, talvez seja mais conhecido na peça Le Merle Noir (O Melro) para flauta solo, mas também abunda neste quarteto.
Se tiver sinestesia, como Messiaen tinha, poderá ver, com os olhos da mente, os acordes azul-laranja no segundo andamento. Ou talvez associe outros matizes à música indubitavelmente colorida de Messiaen.
A combinação instrumental do Quatuor é invulgar, mas Messiaen resolveu-a agrupando os instrumentos em diferentes formações: solos, duetos, trios e quartetos.
As palavras do próprio compositor, rabiscadas na partitura, são provavelmente a melhor descrição daquilo que pretendia evocar em cada andamento:
1. Liturgia do cristal (quarteto completo): Entre as três e as quatro da madrugada, o despertar das aves: um tordo ou um rouxinol solista improvisa entre notas de som cintilante e um halo de trinados que se perdem no alto das árvores. Transposto para o plano religioso: eis o silêncio harmonioso do
céu.
2. Vocalise, para o anjo que anuncia o fim do Tempo (quarteto completo): A primeira e a terceira partes (muito breves) evocam o poder daquele anjo imenso, de cabelo em arco-íris e vestes de neblina, que coloca um pé no mar e outro na terra. Entre essas secções, as harmonias inefáveis do céu. Do piano, suaves cascatas de acordes azul-laranja envolvem, como um carrilhão longínquo, o recitativo de cantochão do violino e do violoncelo.
3. Abismo das aves (clarinete solo): O abismo é o Tempo, com as suas tristezas e tédios. As aves são o oposto do Tempo — são o nosso desejo de luz, de estrelas, de arco-íris e de cânticos jubilosos!
4. Interlúdio (violino, violoncelo, clarinete): Scherzo. De carácter mais extrovertido do que os restantes andamentos, mas ligado a eles por várias referências melódicas.
5. Louvada seja a eternidade de Jesus (violoncelo e piano): Jesus é aqui considerado como uno com o Verbo. Uma longa frase, infinitamente lenta, no violoncelo, expande-se com amor e reverência sobre a eternidade do Verbo, poderoso e doce, “que os anos em nada esgotam”. A melodia desenrola-se majestosa, numa distância simultaneamente íntima e solene. “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”
6. Dança da fúria, para as sete trombetas (quarteto completo): O andamento mais idiossincrático do conjunto no plano rítmico. Os quatro instrumentos, em uníssono, produzem o efeito de gongos e trombetas (as primeiras seis trombetas do Apocalipse anunciam várias catástrofes; a trombeta do sétimo anjo anuncia o cumprimento do mistério de Deus). Uso de valores longos, padrões rítmicos aumentados ou diminuídos, ritmos não retrogradáveis — uma utilização sistemática de valores que, lidos da esquerda para a direita ou vice-versa, permanecem idênticos. Música de pedra, sonoridade formidável; movimento irresistível como aço, como blocos imensos de fúria lívida ou frenesim glacial. Ouça-se, em particular, o fortíssimo aterrador do tema em aumento e com mudança de registo das suas diversas notas, já perto do final.
7. Feixe de arco-íris, para o anjo que anuncia o fim do Tempo (quarteto completo): Certos trechos do segundo andamento reaparecem aqui. Surge o anjo imenso, e em especial o arco-íris que o envolve (símbolo de paz, de sabedoria, de toda vibração luminosa e sonora). Nos meus devaneios, oiço e
vejo melodias e acordes ordenados, cores e formas familiares; depois, passando por este estado transitório, entro no irreal e entrego-me em êxtase a um vórtice, a uma vertiginosa interpenetração de sons e cores sobre-humanos. Estas espadas de fogo, estes rios de lava azul-laranja, estas estrelas súbitas: eis o feixe, eis o arco-íris!
8. Louvado seja a imortalidade de Jesus (violino solo): Solo expansivo de violino que equilibra o solo de violoncelo do quinto andamento. Porquê esta segunda glorificação? Refere-se mais especificamente ao segundo aspecto de Jesus — Jesus homem, o Verbo feito carne, ressuscitado em glória para nos comunicar a Sua vida. É amor total. A sua ascensão lenta até ao ponto supremo é a ascensão do homem ao seu Deus, do Filho de Deus ao seu Pai, do mortal divinizado rumo ao paraíso.
Das Notas ao Concerto, do FIMM
A edição deste ano do Festival Internacional de Música de Marvão decorre entre os dias 24 de julho e 2 de agosto de 2026 .

