Esta é, mais uma vez, uma edição semanal de Supernova cheia de propostas diversificadas, desde a música vocal à sinfónica, à música sacra, de câmara e contemporânea.
Não é muito expectável encontrar Iva Bittová num álbum dedicado a Luciano Berio e Maurice Ravel, mas o facto é que uma artista tão polivalente e singular como ela faz com que o currículo de cantora, violinista, compositora e atriz tenha páginas várias preenchidas com trabalho nas áreas do teatro e do cinema, da música tradicional morava e da improvisação contemporânea, do jazz e da ópera. Recentemente — e já depois de se instalar no Estado de Nova Iorque, EUA — Bittová estabeleceu uma colaboração com o maestro Case Scaglione em torno de obras de Janáček e compositores contemporâneos, na encruzilhada da tradição e da erudição.
Agora, a editora NoMad faz eco desse trabalho através da publicação do disco com o ciclo Folk Songs, de Berio, complementado com 3 partituras essenciais de Ravel: Alborada del Gracioso, Rapsódia Espanhola e Bolero. Para tal, Scaglione dirige a Orquestra Nacional da Ilha de França. Folk Songs (1964), um conjunto de arranjos de melodias da tradição oral de vários países e outras canções, ilustra esplendidamente a curiosidade multifacetada de Berio que o levava a envolver-se com todos os géneros musicais, desde o folclore à música antiga, ao jazz e à composição eletroacústica. O ciclo forma um tributo à cantora norte-americana Cathy Berberian, especialista na música de Berio, e termina com a Canção de amor do Azerbaijão (NoMad Music).
A referência ao EUA e a Cathy Berberian leva-nos ao 2º volume da série Lost American Violin Sonatas. O repertório abordado por Solomia Soroka, Arthur Greene e Phillip Silver é, ainda hoje, quase desconhecido e surgiu maioritariamente numa época em que as audiências norte-americanas estavam fascinadas, sobretudo, com os compositores alemães. O resultado é que figuras como Rossetter Gleason Cole, Henry Holden Huss e Henry Schoenfeld permaneceram na obscuridade, pois não entravam nos programas de concerto das salas do seu país. Noutros casos, compositores que deixaram marca indelével na cena musical americana foram rapidamente esquecidos após a sua morte, por diferentes motivos. O relato é-nos feito neste novo volume, que se debruça sobre Clara Kathleen Rogers, Albert Stoessel e Julius Chajes.
Rogers nasceu na Inglaterra e só se fixou em território americano em 1878, após uma bem sucedida carreira operática. A partir de Boston, tornou-se uma força vital na composição, no ensino e na escrita até ao ano da morte, 1931. Chajes nasceu na atual Lviv, Ucrânia, em 1910 e a sua música alcançou maior visibilidade na comunidade judaico-americana de meados do século XX. Stoessel (1894-1943) nunca obteve o reconhecimento que o seu talento e a sua obra musical mereciam. Depois de estudar violino e atuar em palco enveredou pela composição, a direção coral e o ensino e ocupou lugares de destaque na Universidade de Nova Iorque e na Juilliard School (Toccata Classics).
O catálogo Colin Currie Records foi fundado em 2017 por iniciativa do conceituado percussionista escocês, Colin Currie, líder do Colin Currie Group, especializado na performance e gravação das obras de Steve Reich. Temos, agora, à disposição um álbum contendo os Sextetos de Reich — são algumas das partituras mais importantes que o compositor americano criou para grupos de câmara: o “icónico e cintilante” Sexteto para dois instrumentistas de tecla e quatro percussionistas (1984, rev.’85); o “poderoso e comovente” Duplo Sexteto para duas flautas, dois clarinetes, dois violinos, dois violoncelos, dois vibrafones e dois pianos (2007); as “temporalmente desafiantes” Seis Marimbas (1986; transcrição de Six Marimbas, por James Preiss); e, ainda, uma joia menos conhecida de Reich que dá pelo nome de Dance Patterns (2002), escrita para dois xilofones, dois vibrafones e dois pianos.
Steve Reich escreveu notas explicativas para cada peça; Dance Patterns foi composta para a coreógrafa Anne Teresa de Keersmaeker e o realizador Thierry de Mey. De Mey tinha concluído o filme de uma hora sobre a coreografia de de Keersmaeker, intitulada Counterphrases, e pedira a vários compositores para comporem peças de 5 ou 6 minutos destinadas a uma secção completa do filme. Todas foram tocadas ao vivo pelo Ictus Ensemble durante a projecção da película no Palácio das Belas-Artes de Bruxelas, a 13 Março 2003 (CCR).
“Embora os Quintetos para clarinete de Mozart e Gordon Jacob estejam separados por mais de um século, há uma ressonância evidente no espírito que partilham. Jacob privilegiava a precisão e a clareza de forma demonstradas no quinteto mozartiano, construindo sobre esses alicerces ao forjar o seu próprio estilo distintamente inglês. Em homenagem ao seu amigo e clarinetista inspirador, Anton Stadler, Mozart posicionou o clarinete — um instrumento então na primeira fase moderna de desenvolvimento — no centro do palco. Jacob também encontrou inspiração num clarinetista, o britânico Frederick Thurston”.
Estas são as notas iniciais de Hannah Findlater ao álbum do Gaudier Ensemble (com Richard Hosford no clarinete). Em causa estão o Quinteto com clarinete, La M, K.581, de Mozart e o Quinteto com clarinete, Sol m, de Jacob. Mozart, que compôs a sua obra em 1789, conferiu-lhe o dramatismo operático e encheu-a de charme e carácter; depois do Allegro inicial, o Larghetto constitui o âmago melancólico da peça (concluída com Minueto e Allegretto con variazioni). Jacob compôs o seu Quinteto em 1940; o tema de abertura é, de acordo com o compositor, de “carácter outonal”, enquanto a partitura, no seu todo, enfatiza as qualidades melódicas do clarinete, mas também transmite urgência e inquietação (Orchid Classics).
O novo disco da Kölner Akademie, sob a direcção de Alexander Willens e com um quarteto de solistas de primeira água, contém interpretações das Missas luteranas, BWV 233-236, de J. S. Bach; é uma notável exploração das quatro missas Kyrie-Gloria do compositor, escritas na década de 1730, durante um período de profunda consolidação artística e multiplicação de recursos de escrita. Apesar de serem obras concebidas para grupo instrumental reduzido, estas missas são criações brilhantes e de grande clareza estrutural, constituídas por seis andamentos impecavelmente equilibrados entre a grandeza coral e o intimismo das árias para vozes solistas.
Como explica Bernhard Schrammeck, não se trata exactamente de novas obras, mas de paródias ou revisões de andamentos bem sucedidos de cantatas anteriores, aos quais Bach adaptou o texto latino do ordinário da missa. Após a morte de Bach, o conjunto caiu no esquecimento, ou foi negligenciado e ofuscado pela monumental Missa em Si menor. Hoje os especialistas admiram os seus arranjos sofisticados e as recriações tímbricas adequadas ao contexto da missa. A Kölner Akademie, Willens e solistas oferecem uma gravação historicamente informada das 4 obras.
Paul Büttner nasceu em Dresden, em 1870, numa família de classe operária. Por isso, foram as dificuldades financeiras que o impediram de realizar estudos formais de música até se tornar aluno de Felix Draeseke e se revelar o mais talentoso dos seus discípulos. Em 1896, Büttner foi nomeado maestro coral e professor de canto do Conservatório de Dresden e, em 1905, tornou-se maestro principal da Associação Coral dos Trabalhadores de Dresden; foi, ainda, crítico musical do Dresdner Volkszeitung. Entre todas essas atividades, encontrou tempo para se dedicar à composição e criar, por exemplo, 4 Sinfonias monumentais, entre 1898 e 1918. A partir da estreia da Sinfonia nº 3, em Re b M, os grandes maestros da época interessaram-se pela obra de Büttner, levando-a consistentemente aos palcos alemães. Depois da apresentação em Berlim, Walter Dahms escreveu sobre um compositor “transbordante de invenção, ímpeto e grandeza de ideias; um novo mestre com raízes em Schubert e Bruckner, poderoso e terno”.
A popularidade de Paul Büttner durou 15 anos, até, em 1933, ser destituído de todos os seus cargos e sumariamente demitido do Conservatório pelas autoridades nacional-socialistas. O seu nome desapareceu do espaço público e o artista morreu na pobreza, em 1943. No disco da Orquestra Sinfónica da Rádio de Berlim, sob a direção de Christopher Ward, estão registadas as Sinfonias nos 3 e 4 de Büttner, um compositor hoje apreciado pela unidade formal, a inventividade livre de academismos, a subtileza dos meios e a coragem da escrita, não revolucionária, mas atual (Capriccio).
Inês Almeida