As Cores do Clarinete e a Fonte da Juventude
Retrato de Joseph Bologne, Chevalier de Saint-George (1745-1799), por Mather Brown, 1787. National Portrait Gallery, Londres

As Cores do Clarinete e a Fonte da Juventude

Supernova

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Supernova esta semana descobre novos caminhos no clarinete, trios com piano enquanto obras de juventude de vários compositores, os concertos para violino do franco-caribenho Joseph Bologne, novos álbuns de Haydn e de Florence Beatrice Price, entre outras novidades discográficas.

Esta nova edição de Supernova explora os caminhos do clarinete na imaginação dos compositores contemporâneos da África do Sul. A clarinetista do projeto Clarinet Colours, Maria du Toit, é dedicatária das três obras que refletem, de forma enfática, a complexa tapeçaria de culturas, linguagens e histórias sul-africanas, unidas pelo espírito de resistência e renovação; pois foram Roelof Temmingh (1946-2012), David Earl (*1951) e Conrad Asman (*1996) a reconhecer, no clarinete, as virtudes da versatilidade e da riqueza de cores e energia que propiciam a liberdade criativa para lidar com tão impressionante multiplicidade cultural num país apelidado de «nação arco-íris».
Asman utilizou o conceito de «mecanomorfismo» (máquina como metáfora de expressões não mecânicas) no seu Colour Concerto (2017-18), que cruza as teorias da cor e da música de Newton e Goethe. Já Temmingh, no Concerto para clarinete de 2011, destila a sua linguagem musical altamente individual, na qual gravidade e sagacidade estão em constante tensão. Em 2012, Earl escreveu o Concerto para clarinete e orquestra com percussão, harpa e celesta, em 3 andamentos concisos e contrastantes, sendo que o último apresenta um conjunto de variações sobre a melodia medieval L’Homme armé. Maria du Toit é acompanhada pela Orquestra Filarmónica da Cidade do Cabo, sob a direcção de Arjan Tien.

Fonte da Juventude foi o título escolhido pelo Trio Mithras para o novo disco que resultou da reflexão sobre o facto de tantos compositores célebres terem começado as suas carreiras com a escrita de trios com piano. Nos casos de Beethoven, Franck e Korngold, essas composições foram suficientemente importantes para figurarem nos respetivos catálogos de obras como Op.1; mas depois há toda uma lista de nomes de criadores para os quais o trio com piano foi uma prioridade na juventude, como Brahms, Chopin, Debussy, Rachmaninov, Chostakovich, ou Bernstein. O Trio Mithras debruçou-se sobre o assunto e começou a oferecer recitais com diferentes trios de jovens compositores, nomeadamente a nova obra encomendada à britânica Joy Lisney, que está incluída em Fonte da Juventude como um dos vértices do triângulo onde também figuram Dmitri Chostakovich – com o Trio em Do m, Op.8, escrito aos 16 anos – e Erich W. Korngold – com o Trio, Op.1, escrito aos 12 anos. Petrichor, o novo Trio com piano de Lisney, tem um tema aquático que faz referência ao aroma terroso que se liberta quando a chuva cai em solo seco.

O novo álbum do violinista francês Romuald Grimbert-Barré inclui, também, uma nova obra de homenagem a Joseph Bologne, Chevalier de Saint-George. Este compositor, descendente de escravos africanos levados para as Índias Ocidentais francesas, nasceu em Guadalupe no ano de 1745, mas foi em França (pois o pai era um rico proprietário francês) que recebeu a sua educação esmerada e fez carreira. Estudou com Leclair e Gossec e estabeleceu-se como compositor, esgrimista e diretor musical, tendo dirigido algumas das mais importantes orquestras francesas da época. Homem excecionalmente versátil e talentoso, Saint-George distinguiu-se, sobretudo, no violino e na composição, mas a sua obra foi votada ao ostracismo logo após a morte, por causa das suas origens — afinal, Napoleão reestabeleceu a escravatura nas colónias francesas caribenhas em 1802.
Felizmente, os músicos do século XXI tiraram-no do esquecimento e têm aparecido obras suas gravadas por solistas de gabarito internacional, como Grimbert-Barré, que escolheu os Concertos para violino de Joseph Bologne como tema de uma dissertação sobre o período clássico e, agora, como âmago do álbum Caribbean Violin Concertos. A nova obra a completar o programa é o Concerto “Homenagem ao Cavaleiro de Saint-George”, assinado por Thierry Pécou. Admirador confesso dessa figura de aura romântica, e até heroica, do século XVIII, Pécou evitou a tentação de imitar o estilo de Joseph Bologne, optando por fazer referências indiretas à sua habilidade com a espada, à sua carreira militar e ao seu envolvimento na Revolução Francesa, bem como a sons de espadas em combate, a tradições musicais de Guadalupe e à maçonaria, através de números simbólicos.

Já está editado o volume nº 19 da série Haydn 2032, com direção artística de Giovanni Antonini. Chama-se Trauer e, mais uma vez, estabelece ligações entre as sinfonias de Franz-Joseph Haydn e outras peças de diferentes compositores, sejam eles contemporâneos do homenageado, ou de alguma forma a ele ligados. O disco foi buscar o nome da Sinfonia nº 44, em Mi menor, dos anos 1770-71 (período do Sturm und Drang). ‘Trauer’ significa ‘pesar’, ou ‘luto’, tendo essa designação sido atribuída à Sinfonia, provavelmente, a 9 de Setembro de 1809, num concerto solene de tributo a Haydn, falecido em Maio daquele ano. Não nos chegou o manuscrito autógrafo da obra, mas sim a edição de 1868.
Figuram, também, no disco, as Sinfonias n.os 52, em Do menor, e 108, em Sib Maior. A nº 52 é a última do período Sturm und Drang, escrita no palácio dos Esterházy em Eisenstadt, possivelmente para um serviço litúrgico da Semana Santa, e datada igualmente de 1770-71. A nº 108 é bastante anterior; aliás, é uma das primeiras sinfonias escritas por Haydn (entre 1757 e ’60) e, contudo, por ter sido publicada durante algum tempo como “partita”, sem as respetivas partes para instrumentos de sopro, só tardiamente entrou no catálogo sinfónico Hoboken. O repertório que completa o disco consiste em: Da Pacem Domine, de Arvo Pärt, e Paduana Dolorosa, de Samuel Scheidt – duas obras que, segundo Antonini, surgem como momentos de catarse e contemplação em contraste com o carácter por vezes agressivo e agitado dos Allegros das Sinfonias n.os 44 e 52. A interpretação é da orquestra Il Giardino Armonico.

Supernova destaca, também, o trabalho do cravista ucraniano, Dmitro Kokoshynskyy, de aproximação dos virginalistas ingleses dos sécs. XVI e XVII à época actual, através do álbum Music for These Troubled Times. Há um eixo a ligar os dois mundos; a obra The Anatomy of Melancholy, que Robert Burton escreveu em 1621. Kokoshynskyy revê-se, particularmente, no parágrafo que diz: «Muitos homens ficam melancólicos ao ouvir música, mas é uma melancolia agradável que ela provoca; e, portanto, para os descontentes, os aflitos, os receosos, os tristes, ou os desalentados, é um remédio muito eficaz: afasta os cuidados, altera as mentes sofredoras e alivia num instante».
Assegurando que a música já lhe serviu de consolo em momentos críticos, Kokoshynskyy estabelece o paralelo entre os tumultos de 1600 e os do nosso tempo, especialmente as guerras em curso, e sublinha que o repertório para tecla da Inglaterra renascentista foi o que o acompanhou quando a Ucrânia sofreu a invasão russa, em 2022. Acompanhou-o e aliviou-lhe a melancolia, o receio e a tristeza.
As quatro peças centrais do álbum são: a monumental Felix Namque I, de Thomas Tallis; a mesmerizante A Ground, de autor anónimo; a extraordinária In Nomine, de John Bull e ainda, a servir de ponte entre melancolia do passado e do presente, KHORA, do ucraniano Maxim Shalygin. Um conjunto de peças mais curtas completa o repertório, desde as pavanas contemplativas às peças polifónicas complexas e às alegres variações sobre melodias tradicionais.

A concluir, refere-se o disco que reúne 34 canções de Florence Beatrice Price; uma combinação irresistível de emoções, leveza contagiante, charme lúdico, sensibilidade e engenho melódico. A proeza, devemo-la ao tenor Ted Black e ao pianista Sascha El Mouissi, que conceberam o programa Hold Fast to Dreams, abrangendo canções escritas entre 1928 e 1946 (sem contar com as que permanecem sem data), sobre poesia de autores como Langston Hughes, Louise Wallace, Lorde Byron, Mary Rolofson, Ogden Nash, ou Nora Connelly.
Inês Almeida