O episódio desta semana de A Voz das Cores, da autoria de Andrea Lupi, é dedicado à tela Carnaval de Candido Portinari, figura central do realismo social brasileiro. Conhecido internacionalmente por retratar a realidade social e humana do seu país, a dor dos migrantes, o trabalho no campo e a cultura popular, recorrendo a uma estética modernista que une influências das vanguardas europeias a temas nacionais, que o torna um pintor universalista.
Cavalo-Marinho (1942)
Candido Torquato Portinari
“Não há folia em Cavalo Marinho. Somente um instrumentista sentado e um brincante apático figuram nessa tela. O menino, com sua fantasia de cavalo, dá sinais de cansaço; a coluna levemente jogada para frente e a cabeça para trás. O músico, por sua vez, sentado na penumbra segue tocando sua cuíca com olhos inertes. As linhas retas, nos desenhos dos corpos e dos vestuários, dão uma sensação de imobilidade. Os dois personagens à frente, quase paralisados, têm às costas um fundo vazio, com algumas sobreposições de figuras geométricas somadas ao cromatismo cinza, azul e preto. Apatia e solidão parecem eivar essa tela.”
Palavras de Luis Felipe Hirano acerca da tela pintada em 1942 pelo pintor brasileiro Candido Portinari, que integra o acervo do Museu Nacional Soares dos Reis.
Carnaval, originalmente intitulado Cavalo-Marinho, representa uma festividade popular da região de Pernambuco. A obra faz parte de uma série de 8 pinturas criadas para a decoração do auditório da Rádio Tupi, no Rio de Janeiro. A encomenda partiu do empresário brasileiro Assis Chateaubriand, magnata dos media ibero-americanos que, na qualidade de Senador da República, ofereceu ao Estado Português os dois painéis que sobreviveram ao incêndio que assolou a Rádio Tupi em 1949.
Candido Torquato Portinari é considerado um dos maiores pintores brasileiros de sempre. Natural de Brodowski, no estado de São Paulo, foi o 2º de 12 irmãos, filhos de emigrantes italianos. Nasceu numa fazenda de café e reza a história que não concluiu o ensino primário. Cedo manifestou um grande talento para o desenho. O rumo da sua vida ficou definido quando, aos 14 anos, conheceu e trabalhou como ajudante para um grupo de pintores italianos que passaram por Brodowski, para pintar a igreja matriz da localidade.
Com 16 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, ingressando na Escola Nacional de Belas Artes. Aqui conquistou um grande prémio que lhe abriu as portas para uma estada de 2 anos em Paris. De regresso ao Brasil, teve uma carreira fulgurante, incluindo uma exposição no MOMA.
Assumia-se como pintor do povo: “pinto a dor, a alegria, o trabalho, a miséria, o meu povo, enfim”, integrando-se na estética neorrealista.
“Pertenço ao povo, com todos os seus defeitos e qualidades, por isso lutarei pelo partido do povo (…) Minha arma é a pintura.” Por ser membro do Partido Comunista Brasileiro esteve exilado no Uruguai, mas regressou ao Brasil.
Na década de 50 começou a manifestar os primeiros sintomas de doença associada ao chumbo das tintas que usava, o que ditou a sua morte, a 6 de Fevereiro de 1962.
O programa que lhe é dedicado conta com música de António Carlos Gomes, Norberto Macedo, César Guerra-Peixe, João Guilherme Ripper, Heitor Villa-Lobos e Camargo Guarnieri.
Andrea Lupi

Carnaval (Cavalo-Marinho) (1942)
Candido Torquato Portinari (1903 – 1962)
Têmpera sobre tela
225 x 300 cm
© Museu Nacional Soares dos Reis
Créditos fotográficos | MNSR
