George Gershwin é o Compositor do Mês em fevereiro na Antena 2. Todas as quartas-feiras acompanhamos um percurso pela vida e obra do compositor, conduzido por Inês Almeida.
George Gershwinfoi um dos compositores mais influentes do seu tempo e as suas obras (tanto as canções como as composições instrumentais) ainda hoje são muito tocadas e constantemente recuperadas por novas gerações de cantores, instrumentistas e orquestras, cruzando figuras dos mais variados géneros musicais.
George Gershwin: Uma Vida em Música,
a partir da biografia de William George Hyland
Rhapsody in Blue e o Jazz
O primeiro grande sucesso de Gershwin foi a canção Swanee (letra de Irving Caesar, 1919), na interpretação de Al Jolson, cujo disco, editado pela Columbia em 1920, vendeu centenas de milhares de cópias e promoveu também a venda da partitura.
Gershwin começou, ainda, a compor “música séria”, como o andamento para quarteto de cordas Lullaby (1919) e a “ópera-jazz” Blue Monday Blues (1922).
As suas ambições enquanto compositor tiveram um grande avanço quando Paul Whiteman lhe encomendou e dirigiu a peça para piano e orquestra de jazz, Rhapsody in Blue (1924, com Gershwin como solista). Dada a inexperiência de Gershwin, a orquestração foi levada a cabo por Ferde Grofé, arranjador de Whitemann. Daí para a frente, Gershwin afirmou ter feito a orquestração das suas restantes obras de sucesso, embora seja plausível ter obtido a assistência de Joseph Schillinger.
Inês Almeida
A história de “Rhapsody in Blue”
O programa que subiu ao palco do Aeolian Hall, em Nova Iorque, a 12 de fevereiro de 1924, apresentava como título: An Experiment on Modern Music. Peça central nessa noite, colocada na penúltima posição no alinhamento, era então estreada uma nova composição do ainda muito jovem George Gershwin.
Então com 25 anos mas com reputação já conquistada como autor de canções, associado à verdadeira maternidade de canções que ficou conhecida como Tin Pan Alley, Gershwin tinha conquistado um primeiro grande sucesso em 1919 com Swanee e estreado já alguns musicais na Broadway.
Gershwin, apesar de ter sido desafiado por Paul Whiteman para criar um “concerto jazz” para esse evento, ter-se-à esquecido do pedido, tanto que o reencontrou nas páginas de um jornal, onde leu que uma nova peça sua seria estreada a 12 de fevereiro no Aeolian Hall… Faltavam cinco semanas! Era preciso arregaçar as mangas.
A ideia emergiu uma viagem entre Nova Iorque e Boston, onde ia estrear o musical Sweet Little Devil. A cadência rítmica sugerida pelo avanço do comboio sobre os carris deu-lhe a visão ampla da peça que ia compor. Esteve para se chamar ‘An American Rhapsody’, mas acabou como Rhapsody in Blue, sob sugestão de Ira Gershwin, irmão do compositor.
Com arranjo de Ferde Grofé, feito a partir da partitura original para dois pianos, nasceu a versão original de Rhapsody in Blue para jazz band que conheceu estreia nessa histórica noite de 12 de fevereiro de 1924. Uma noite tão marcante na história da música como fora, alguns anos antes, a estreia da Sagração da Primavera, de Stravinsky, em Paris.
Foi o próprio George Gershwin quem tomou o lugar ao piano, havendo relatos da época que sugerem que ele mesmo terá improvisado algumas passagens.
Conta-se que a orquestra a dada altura ficou de atenções concentradas no solo de Gershwin e nas expressões do seu rosto para saber, exatamente, quando deveria novamente entrar.
Nesse mesmo ano Gershwin voltou a tocar Rhapsody in Blue ao piano numa primeira versão fixada em disco (num 78 rotações lançado pela Victor). Dezoito anos depois, em 1942, novamente pelas mãos de Fred Gofé, surgiria uma nova versão com orquestração alargada para orquestra sinfónica, sendo esta a que ganhou um lugar em programas de muitas orquestras pelo mundo fora.
Nuno Galopim