A primeira série do programa de Inês Almeida sobre mulheres compositoras, Cem Sóis a Abater: Retratos de Mulheres Compositoras estreou no início de setembro. Cada episódio foca-se na biografia de uma personalidade, enquadrando-a no seu tempo e fornecendo pistas de escuta musical. Neste episódio, olhamos e escutamos Laura Constance Netzel, conceituada compositora, pianista, maestrina, filantropa e organizadora de concertos, nascida na Finlândia.
Laura Constance Netzel (1839–1927), nascida Laura Constance Pistolekors em Rantasalmi, na Finlândia, foi uma compositora, pianista, cantora, maestra e filantropa que desenvolveu a sua carreira sobretudo em Estocolmo, onde se destacou pela originalidade musical e pela defesa do acesso à cultura.
Educada num ambiente aristocrático e musical, estudou piano com Mauritz Gisiko e Anton Door, canto com Julius Günther e composição, mais tarde, com Wilhelm Heintze e Charles-Marie Widor, em Paris. Adoptou o pseudónimo Lago, posteriormente N. Lago, para contornar os preconceitos que limitavam o reconhecimento das mulheres compositoras, passando a publicar obras em seu próprio nome em 1884.
A sua produção abrange canções em sueco e francês, música coral sacra e profana, peças para piano, música de câmara e obras orquestrais, revelando uma linguagem marcada pela expressividade romântica, pela riqueza harmónica e pela influência da música francesa. Entre as suas composições mais significativas encontram-se o Stabat Mater, estreado em 1890, e o ambicioso Concerto para Piano em Mi menor, cuja partitura incompleta permaneceu durante décadas à espera de uma reconstrução que permitisse a sua execução integral.
Apesar de ter alcançado reconhecimento internacional, especialmente em França, na Alemanha e na Bélgica, Netzel enfrentou críticas que frequentemente julgavam a sua música à luz das expectativas impostas às mulheres, considerando excessivas a sua complexidade harmónica e a sua ambição artística.
A atividade de Laura Netzel ultrapassou largamente a composição e a interpretação musical, refletindo um profundo compromisso com a beneficência e a democratização da cultura. Em 1892, fundou em Estocolmo uma série de concertos para trabalhadores, com entradas a apenas vinte e cinco öre, que decorreram durante dezasseis anos e ofereceram ao público música erudita interpretada por músicos de qualidade, ao mesmo tempo que proporcionavam oportunidades a jovens intérpretes. Dirigindo coros e orquestras, incluindo em apresentações das suas próprias obras, contribuiu para aproximar a música de públicos habitualmente afastados das salas de concerto.
A sua ação filantrópica incluiu a angariação de fundos para mulheres em situação de pobreza, crianças, pessoas sem abrigo e instituições de assistência social, bem como o apoio a iniciativas culturais como o Skansen e o Nordiska museet.
Em 1893, presidiu à participação musical das mulheres suecas na Exposição Mundial Colombiana de Chicago, promovendo as obras de compositoras como Elfrida Andrée, Valborg Aulin e Helena Munktell e defendendo o reconhecimento das mulheres enquanto criadoras.
Embora a sua reputação tenha diminuído após a morte, o interesse renovado pela sua obra tem permitido recuperar partituras e reavaliar o seu contributo para a história da música. A estreia moderna do seu Concerto para Piano, em 2020, e o festival que lhe foi dedicado em Rantasalmi, em 2021, testemunham essa redescoberta.
O legado de Netzel reside, assim, tanto na diversidade e ousadia da sua música como na sua luta por maior igualdade de oportunidades e por uma vida musical mais acessível, inclusiva e socialmente comprometida.
Inês Almeida
