Esta segunda-feira mais um Supernova, com renovada seleção de novidades discográficas, nas quais sobressaem algumas das compositoras esquecidas pela História da Música.
A ronda tem início com um álbum que contém as 1as gravações mundiais do Concerto em La m e da Sinfonia em Si m, de Leokadiya Kashperova. Durante décadas, a compositora russa, nascida em 1872, foi conhecida apenas por ter sido professora de piano de Stravinsky. Porém, na viragem para o séc. XX, as obras de Kashperova foram, efectivamente, interpretadas em público, até fora da Rússia. Mas ainda antes de morrer, em 1940, já essa produção estava praticamente esquecida e foi apenas graças aos esforços do musicólogo Graham Griffiths que Leokadiya Kashperova surgiu reabilitada nas edições críticas publicadas pela Boosey & Hawkes. O Concerto, Op. 2, e a Sinfonia, Op. 4, são as duas obras mais substanciais que escreveu. O Concerto data de 1900 e foi a própria compositora quem o estreou, em 1901; o manuscrito esteve perdido até, 115 anos mais tarde, Griffiths o descobrir no Museu Nacional da Música Russa, em Moscovo. Com os seus 3 andamentos, o Concerto em La m adere ao modelo clássico-romântico e está agora finalmente registado em disco por Oliver Triendl e a O. S. da Rádio de Berlim, sob a direção de Anna Skryleva (ed. Capriccio).
Mais boas notícias! Já está cá fora o 2º volume da série Prix sans Prix que a flautista Adriana Ferreira e a harpista Silvia Podrecca dedicam a mulheres compositoras dos séculos XIX a XXI, desafiando narrativas redutoras e o apagamento histórico a que muitas delas foram votadas. Somos convidados a fazer a escuta crítica e luminosa de repertórios de várias geografias, estéticas e gerações, que conjugam evocação, lirismo, experimentação e rigor formal; estão incluídas obras de Margherite Roesgen-Champion, Norma Beecroft, Teresa Procaccini, Clotilde Rosa, Clémence de Grandval, Carmen Petra-Basacopol e Yuko Uebayashi – compositoras amplamente reconhecidas no seu tempo, premiadas e interpretadas, mas que continuam, em muitos casos, ausentes dos circuitos regulares de programação. De Danse rituelle (1943) a Sonate Flore (2017), o disco revela uma pluralidade de linguagens que desmonta a ideia de uma «escrita feminina» homogénea – pelo contrário, evidencia trajetos artísticos singulares, moldados por contextos históricos, sociais e culturais distintos (ed. Codax).
Les Mondes Baroques é o duo criado pela violoncelista Anna-Charlotte Dupas e Xavier Marquis, no fagote e no chalumeau. Para o seu álbum de estreia, Jeu de Rôles, o duo convidou o alaudista Bor Zuljan e o cravista Paolo Corsi a juntarem-se-lhe num trabalho que tomou como base as sonatas para violoncelo de Joseph Boismortier, terreno fértil para um diálogo entre fagote e violoncelo, em que o compositor evoca a eloquência dos instrumentos de registo grave, permitindo o confronto, ou a interpenetração, de timbres e cores. Os músicos expandem a interacção de gostos e personalidades oferecida pela linguagem musical de Boismortier: um «Gabinete de Curiosidades Musicais» (anónimas e inéditas, na sua maioria), incluindo canções crioulas, canções de beber, peças de inspiração turca e outras influências «exóticas» da época, insinua-se entre as sonatas e permite alargar o retrato de uma música variada e mestiça no séc. XVIII (ed. Paraty).
Ainda no final de Fevereiro vimos surgir mais um excelente disco do ensemble vocal Cupertinos, sob a direção de Luís Toscano, onde estão registadas obras de Francisco Garro (c. 1556-1623). Nas notas ao programa, lemos que “evocar o nome do compositor remete-nos para um dos mais destacados e intrigantes vultos da História e da Historiografia da Música em Portugal. Garro nasceu em Alfaro, urbe espanhola no vale do rio Ebro, e foi mestre de capela na Catedral de Sigüenza antes de, no contexto ibérico da Monarquia Dual (1580-1640), ser nomeado Mestre da Capela Real de Lisboa, em substituição de António Carreira”. Francisco Garro tornou-se, assim, “um protagonista incontornável no ambiente musical luso”; durante as mais de 3 décadas que permaneceu no cargo, contou com a colaboração de Filipe de Magalhães e publicou dois volumes de obras sacras no ano de 1609. Um deles é o livro de coro “cujas obras traduzem uma forte continuidade” com a tradição de épocas anteriores, em que “o contraponto imitativo constitui um dos principais recursos composicionais” (ed. Hyperion).
O Duo Codax, do violinista Adam Markowski e da pianista Verena Louis, fez do ano de 1878 o centro do seu novo álbum. Foi em 1878 que Thomas Edison recebeu a patente pela invenção do fonógrafo, a 1ª tecnologia de captação e reprodução de som. E foi nesse mesmo ano que as 3 sonatas para violino e piano do disco foram escritas: a Sonata nº 1, em Sol M, de Brahms, a Sonata em Si m, de Amanda Maier, e a Sonata nº 1, Op.20, de Robert Fuchs. Deste modo, os músicos pretendem ligar a pedra angular da tecnologia acústico-mecânica com 3 obras muito especiais. Não se sabe se Maier e Fuchs alguma vez se cruzaram, mas Brahms conhecia ambos pessoalmente e tinha grande admiração pelo seu talento. Louis e Markowski garantem que descobrir as pessoas por trás das peças abriu todo um outro nível de abordagem às partituras (ed. Genuin).
Inês Almeida