Pioneiro, desafiante, figura marcante de uma geração de compositores com epicentro na cidade de Nova Iorque na segunda metade do século XX, Morton Feldman (1926-1987) nasceu no Bairro de Queens, em Nova Iorque, a 12 de janeiro de 1926, numa família de emigrantes ucranianos que tinha chegado aos Estados Unidos em 1910 e montado ali um negócio de roupa para criança. Começou a estudar piano nos dias de infância e, com o avançar do tempo, deu por si a ter aulas com discípulos de Shoenberg e Webern.
No início da década de 50 conheceu John Cage e acabou até por se mudar para o rés do chão do mesmo edifício onde este estava então a viver. Cage motivou-o a procurar novos métodos de trabalho, a repensar a relação entre a obra escrita e o intérprete e, inclusivamente, a ponderar novos sistemas de notação gráfica.
Ao mesmo tempo, as visitas habituais de amigos de John Cage abriram horizontes de ligação a outros compositores e também a várias outras expressões artísticas, sobretudo os universos das artes plásticas. Feldman frequentou depois o Eight Street Artists Club e, pela imponência da sua figura e sendo um bom conversador, fazia-se facilmente notar entre os que ali se juntavam.
Em 1972 começou a dar aulas na Universidade de Buffalo, no estado de Nova Iorque. Até então a sua principal fonte de sustentação era o negócio de têxteis que o seu pai tinha criado no início do século, em Queens. Mas o posto como professor em Buffalo, assim como residências na Universidade da Califórnia, em San Diego (já nos anos 80) não silenciaram de todo o compositor. E datam até dessa etapa da sua vida algumas das obras mais extensas que compôs, entre as quais o Quarteto de Cordas Nº 2, de 1983, com mais de seis horas de duração. Estas obras refletem sobre a relação entre os sons e as periferias do silêncio, acentuando outra das marcas da sua identidade autoral.
O homem falador e bem humorado que os amigos conheciam contrastava curiosamente com a música tranquila que escrevia. Uma música que não era concebida para veicular mensagens, tal como ele mesmo explicou, numa ocasião, durante um seminário na Alemanha nos anos 70.
Feldman viu algumas das suas obras gravadas e editadas em disco ainda em vida. Mas desde que nos deixou, em 1987, com 61 anos, vítima de um tumor no pâncreas, Morton Feldman tem sido presença regular em catálogos de etiquetas atentas à música contemporânea e a sua música tem cativado seguidores até mesmo entre públicos nas franjas mais exploratórias do pop/rock. Se olharmos para a sua discografia notamos até a presença de algumas obras já com várias gravações. São disso exemplo Patterns in a Chromatic Field, For Bunita Marcus, For Samuel Beckett, Triadic Memories, Coptic Light ou Rothko Chapell, que, numa gravação histórica de 1976 acaba de surgir numa nova reedição (em vinil) assinalando o centenário do compositor.
Rothko Chapell é uma que escutamos na íntegra no especial da Antena 2 que conta com depoimentos dos compositores Luís Tinoco e Sérgio Azevedo.
Nuno Galopim