No episódio desta semana o Gira Discos vai seguir os trilhos de um jornalista e escritor que andou pelo mundo e, das muitas latitudes e longitudes que visitou, nos legou um conjunto de livros, uns de relatos factuais, outros de ficção. Bruce Chatwin (1940-1989) é uma das maiores referências da literatura de viagens. Mas até publicar uma primeira linha de texto tanto trabalhou numa leiloeira como num jornal (inicialmente como consultor na área da arquitetura).
Nos anos 50 as suas primeiras viagens levaram-no ao Afeganistão, à Etiópia, ao Sudão . E desde logo desenvolveu um fascínio por tribos nómadas. Ainda antes de iniciar um percurso no jornalismo escreveu The Nomadic Alternative, que ficou então na gaveta.
Voltou a errar pelo mundo, da Nigéria à Mauritânia. Até que, já no Sunday Times, começou a escrever sobre temas internacionais e a assinar entrevistas. Uma das suas entrevistadas foi, a dada altura, uma arquiteta argentina de 93 anos que lhe falou então sobre a Patagónia. Ele diz-lhe que esse era um lugar onde sonhava poder ir um dia. Ao que ela responde o mesmo e acrescenta: vá por mim… Dois anos depois ele mesmo fez as malas. E, como reza a mitologia, enviou então uma nota à redação do jornal: “fui para a Patagónia”. E dessa viagem de seis meses nasceu o seu primeiro livro: Patagonia.
A esse livro seguiram-se outros, entre os quais as ficções como O Vice-Rei de Ajudá (1980), que recorda o tráfico de escravos no século XIX (e que seria adaptado ao cinema por Werner Hezrog em Cobra Verde) ou Utz (1988), que tem por protagonista um colecionador de porcelanas nos tempos da Cortina de Ferro, história que partiu de uma carta que ele mesmo tinha enviado a Elizabeth Chanler, sua mulher, em 1967, na qual falava de um colecionador de arte que tinha conhecido. Ou seja, mesmo em terreno de ficção a escrita partia de factos, lugares e figuras reais.
Houve mais livros de viagens, num percurso interrompido cedo por complicações da infeção com o vírus VIH que acabaram por ditar a sua morte em 1989, ano no qual é publicado O Que Faço Eu Aqui. Este volume é uma recolha de textos onde podemos ler sobre uma matemática e arqueóloga alemã que estudou as Linhas de Nazca (no Perú), uma descida do rio Volga com um grupo de turistas, entre os quais estava um soldado alemão que tinha combatido na Frente Oriental durante a Segunda Guerra Mundial, a história de um rapaz-lobo que sobreviveu anos a viver na floresta nos sopés dos Himalaias ou a evocação da figura de Edmund Hillary ou o neozelandês autor da primeira escalada bem-sucedida do Monte Evereste.
O Gira Discos vai seguir os passos de Bruce Chatwin através da música. E junta ainda memórias de cinema com Werner Herzog (que em 2019 apresentou o documentário Nomad: In the Footsteps of Bruce Chatwin) ou do compositor irlandês Kevin Volans, amigo e admirador de Bruce Chatwin, a quem dedicou o seu Quarteto de Cordas nº 3: The Songlines (1988) e que, dois anos mais tarde, editou o álbum Cover Him with Grass: In Memoriam Bruce Chatwin (1990).
Nuno Galopim