Nesta semana o Supernova apresenta uma panóplia de novidades discográficas: dos quartetos de Brambach, aos concertos para piano de Mozart passando pela música para instrumentos de cordas dos irmãos Rocco e Gaetano Greco, a obras para piano de Ives, de Ravel e de Rachmaninov, à Missa nº 3 de Anton Bruckner.
Esta semana, o Supernova começa por destacar a faceta menos conhecida do compositor romântico alemão Caspar Joseph Brambach. Criado em Bona, estudante em Colónia com Hiller, Reinecke e Franz Weber, nos primeiros anos de carreira compôs música de câmara e interpretou Beethoven. Em 1861, foi nomeado diretor musical da cidade de Bona, onde apresentou oratórias de Bach, Haendel, Haydn e Mendelssohn, bem como obras de compositores contemporâneos, fundou um ciclo de música de câmara e profissionalizou a sociedade coral. Oito anos mais tarde, a falta de condições de trabalho, aliada a uma audiência nem sempre recetiva, fez com que Caspar Brambach se demitisse do cargo. Continuou em Bona nos 30 anos seguintes, compondo prolificamente música coral interpretada regularmente nos festivais do Império Germânico — foram as obras que o celebrizaram. É, pois, com justificada curiosidade que descobrimos o álbum onde estão reunidos os 3 Quartetos com piano e o Sexteto com piano de Brambach (de tradição romântica ancorada em Schumann e Brahms), interpretados por Ernst Breidenbach (pn), Ingo de Haas (vl), Thomas Rössel (vla) e Mikhail Nemtsov (vlc)(ed. CPO).
No espaço das interpretações historicamente informadas, saúda-se o lançamento de mais um volume de Concertos para piano de Mozart concebido por Olga Pashchenko e ensemble Il Gardellino. A solista sublinha a importância dos instrumentos que aí toca: a cópia de um pianoforte Walter (no Concerto nº 18, de 1784) e a cópia de um piano de tangentes Späth & Schmahl (nos Concertos nos 6 e 8, de 1777). Para Pashchenko, este instrumento representa a diversidade do mundo das teclas no séc. XVIII, assim como a ambiguidade entre o som do cravo e a dinâmica do pianoforte — que é consentânea com a ligação formativa de Mozart aos estilos barroco e galante. Essa contextualização estética ilumina a análise interpretativa de cada obra do disco, em toda a sua diversidade e riqueza (ed. Alpha).
O álbum The Greco Brothers os seis solistas que formam o grupo I Mastricelli interpretam obras para violoncelo, violino baixo e tecla dos irmãos Rocco e Gaetano Greco, que estiveram bem no centro da vida musical de Nápoles no último quartel do séc. XVII. Rocco era um virtuoso dos instrumentos de corda friccionados, professor no Conservatório Poveri di Gesù Cristo, cujas obras — entre as quais sinfonias, diminuições e antífonas — estão reunidas num manuscrito de peças pedagógicas guardado na abadia de Montecassino e datado de 1699. A escrita de Rocco Greco reflete o brilhantismo técnico dos violoncelistas napolitanos, mas também oferece um vislumbre raro das práticas de execução do baixo contínuo, contribuindo para a sua emancipação; essa técnica, designada «partimento», permitia a criação de uma peça musical completa a partir de um baixo, através da improvisação e da elaboração estilística. Gaetano Greco figura no disco com obras que põem à prova a técnica do «partimento» e Francesco Mancini surge com alguns dos primeiros exemplos de «partimenti» napolitanos (ed. Challenge).
Each and All, disco de estreia do pianista norte-americano Shane van Neerden, reúne 3 pesos-pesados da literatura pianística do séc. XX: a Sonata nº 2, Concord, de Charles Ives, a suite Gaspard de la Nuit, de Ravel e a Sonata nº 2, de Rachmaninov. Charles Ives domina com a obra onde homenageia personalidades associadas ao movimento filosófico, espiritual e literário do Transcendentalismo: Emerson, Hawthorne, The Alcotts e Thoreau. Van Neerden compromete-se a uma exploração individual profunda da obra, garantindo ser recompensado com a “sensação de integridade, até de divindade, na comunhão entre o intérprete e a própria arte” (ed. 7 Mountain Records).
De saída, o Supernova celebra a edição em disco de um concerto que terá ficado gravado na memória de toda a assistência: foi a 21 de Março de 2025, na Liederhalle de Estugarda, que se reuniram os solistas Erika Baikoff (s), Wiebke Lemkuhl (c ), Sebastian Kohlhepp (t) e Matthew Rose (b), com o Coro da WDR, o Ensemble Vocal e a Orquestra Sinfónica da SWR, sob a direção de Pablo Heras-Casado, para a interpretação da Missa nº 3, Fa m, WAB 28, de Anton Bruckner. O EP já está editado, em breve sairá o álbum completo contendo, ainda, o Te Deum do compositor (ed. SWR Musik).
Inês Almeida