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Cultura 6 nov, 2026, 13:10

Nos 50 anos da estreia de “Espaço 1999”

Especial

Neste outono de 2026 que assinala a passagem de 50 anos sobre a estreia de Espaço 1999 em Portugal, a RTP Antena 2 juntou em estúdio quatro espectadores que ficaram para sempre marcados pelos episódios desta série de ficção científica.
Isilda Sanches, Luís Caetano, Nuno Galopim e Ricardo Sérgio trocam memórias, debatem ideias e notam como aqueles finais de tarde em frente ao televisor foram de facto marcantes.

Especial RTP Antena 2

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Entre nós Espaço 1999 causou um fenómeno de popularidade ímpar entre um género até ali sem representação nos pequenos ecrãs nacionais e que, depois desta experiência, teve continuidade numa série de outras exibições, entre elas as de séries como Star Trek, A Nave Orion, Blake’s 7, As Aventuras de Buck Rogers no Século XV ou Galactica, entre algumas outras mais.

E tudo começa a 13 de setembro de 1999… Uma sucessão de reações em cadeia nos depósitos de detritos nucleares na face escura da Lua gera uma explosão sem precedentes que catapulta o satélite natural da Terra para lá da sua órbita, levando consigo para uma viagem pelo espaço profundo, e sem timoneiro nem leme, os mais de 300 habitantes de uma base lunar… Hoje sabemos que semelhante cataclismo não aconteceu, a Lua visitando-nos ainda, noite após noite, nos nossos céus. E na verdade, quando esta mesma “história” passou pela primeira vez pelos ecrãs de televisão, em 1975, era cenário que se encarava como exercício de ficção, sem projeção possível na realidade. Essa foi, contudo, a premissa que lançou as bases para uma série que se transformaria num dos maiores fenómenos de culto da ficção científica e que nasceu de um desafio lançado há precisamente 40 anos.

Depois de ter criado uma sucessão de séries de aventuras – usando bonecos e modelos – ao longo de toda a década de 60, Gerry Anderson dava novos passos na ficção científica de imagem real em UFO, que a ITV apresentou entre 1970 e 71. Seria, todavia, o passo seguinte que, apesar dos momentos já assinados em Thunderbirds ou Captain Scarlet, inscreveria o seu nome entre os maiores da história sci-fi contada no pequeno ecrã. Num projeto que envolveu várias frentes de financiamento – no Reino Unido e Itália – e tendo desde cedo a vontade de atuar no mercado dos EUA (daí a presença dos atores norte-americanos Martin Landau e Barbara Bain como protagonistas), apresentou em Espaço 1999 (Space 1999 no original) uma das mais interessantes entre as muitas criações que o universo da ficção-científica nos deu antes do ano histórico em que os feitos de Star Wars e Encontros Imediatos de Terceiro Grau transportavam definitivamente estes domínios a plateias bem mais vastas.

A ação centra-se numa base lunar que tem por um lado uma missão científica de investigação e, por outro, a gestão dos lixos nucleares que são enviados da Terra e depositados em zonas da face escura da Lua. É de um problema com o armazenamento destes depósitos que eclode uma reação em cadeia que catapulta a Lua para fora da órbita terrestre e, a bordo, a base Alpha… Estava assim encontrado um modelo alternativo de veículo que conduzisse o homem rumo a outros lugares, ora encontrando povos diferentes ora reflexos e ecos da própria humanidade, revelando a primeira época frequentes momentos de reflexão e diálogo mais próximos de modelos da literatura sci-fi do que de enredos de ação.
Gerry Anderson usou da melhor forma a sua veterania no domínio do trabalho com modelos para criar uma base e naves de design e desempenho cativante. O design e o guarda-roupa ajudaram a criar uma imagem (de marca). E um naipe de personagens com espaço para se afirmarem entre as narrativas apresentadas ajudou a criar um corpo sólido que sustentaram duas épocas de produção.

As duas épocas são consideravelmente distintas entre si, na segunda notando-se um apertar do cinto no departamento de art direction – há novos cenários, entre eles uma missão de comando mais de dieta –, novas opções no guarda-roupa, uma nova banda sonora sem o travo space disco da original, episódios com mais vitaminas de ação e relações entre personagens mais estereotipadas e, como valor maior, o aparecimento de Maya, uma alienígena com capacidades mutantes que se junta ao núcleo central de personagens. Mas tal como a primeira série havia desencorajado os executivos, também a segunda acabou com um ponto final, este contudo definitivo.
O culto ficou e as repetições alicerçaram um relacionamento continuado com os episódios (entre nós foi nestas repetições que, além da caderneta de cromos, aquelas imagens ganharam cor). Está neste em curso um projeto para a produção de um spin off, sobre o qual não tem, contudo, surgido muita informação.

Desde cedo surgiram naturais comparações entre Espaço 1999 e Star Trek (entre nós O Caminho das Estrelas), cuja série original havia sido apresentada entre 1966 e 1969. Essas afinidades são apontadas inclusivamente na The Encyclopedia of Science Fiction de John Clute e Peter Nicholls onde, referindo ambos como seguindo um formato em que há viajantes pela galáxia “visitando vários planetas e encontrando estranhas formas de vida”. Mas, continuam os autores, “onde as personagens de Star Trek viajam a bordo de uma nave espacial, o pessoal de Espaço 1999 faz a sua demanda interplanetária numa Lua em fuga, criando uma ‘obrigação’ que deverá ter causado muitas frustrações aos argumentistas”.
Outra das evidentes afinidades da série aponta à memória (ainda recente) do filme 2001: Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick, não apenas nas sequências vividas na superfície lunar como nas que acompanhamos na estação orbital em torno da terra e no vaivém que acompanhamos rumo à base lunar.
Se tivermos ainda em conta que a chegada do homem à Lua (em julho de 1969) era ainda uma memória viva e que estava ainda vigente o projeto Apollo, da Nasa quando decorreram em 1972 as primeiras reuniões das quais nasceria a ideia para a série, a Lua (e a ideia de uma base lunar), mais que uma atraente ideia de ficção científica, parecia destino afinal ao alcance da ciência.
Nuno Galopim

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