Com Bradbury, ficámos a saber a temperatura a que o papel do livro se incendeia e arde: 451 graus Fahrenheit, ou 233 graus Celsius. Mas esta é também a medida que pode designar um certo estado das coisas. Uma sociedade em que os membros de determinado tipo de corporação, antes treinada para salvar, agora são chamados a destruir; e uma época em que as casas estão revestidas à prova de fogo. Porquê? Porque o alvo destes agentes da censura estatal são os livros, esses objetos domésticos que “falam entre si”, como escreveu Umberto Eco n’O Nome da Rosa.
No livro e no filme, o protagonista de Fahrenheit 451 é um dos bombeiros que cumpre – cegamente, pensamos nós – a tarefa de queimar. Montag, interpretado por Oskar Werner, regressa de um desses trabalhos de rotina quando conhece uma vizinha, Clarisse (com o rosto de Julie Christie), que faz perguntas desconcertantes: é verdade que, noutro tempo, a atividade dos bombeiros era diferente? O que levou Montag a escolher aquela profissão? Ele não gosta de livros?!… O diálogo entre os dois funciona, assim, como um bom ponto de partida: para Montag, que recita a cartilha do Estado, os livros tornam as pessoas infelizes. E isso acontece, basicamente, porque lhes põem ideias na cabeça.
Na adaptação de Truffaut, não restam dúvidas quanto ao seu amor ao objeto livro: as capas e o que guardam dentro. Veja-se como a câmara, sempre que tem oportunidade, percorre títulos e autores, muitos deles da própria biblioteca do realizador francês, desde Jean Cocteau a Pierre Klossowski, Jean Genet a Lord Byron, de Lolita à edição 103 dos Cahiers du Cinéma. Muitos são os tesouros de páginas que atraem o nosso olhar, antes mesmo de serem consumidos pelas chamas.
Numa cena particularmente vigorosa, o chefe de Montag (interpretado por Cyril Cusack) descobre uma enorme biblioteca no sótão de uma casa e, falando-lhe da curiosidade que espicaça todos os bombeiros, pelo menos uma vez na vida, quanto ao que se esconde no interior das lombadas dos livros, aproveita para lhe explicar porque é que tudo aquilo que vê, aqueles imensos volumes nas estantes, não prestam para nada: nos romances, diz, as pessoas retratadas não existem, e quem lê as histórias fica frustrado porque gostaria de viver de outra maneira, que não será possível; a filosofia é ainda pior, com homens de ego inchado a defenderem que a sua teoria é que conta; e o que dizer das autobiografias, que só servem para, quem as escreve, olhar os outros de cima?
No pólo oposto, uma das cenas mais tocantes de Fahrenheit 451 é aquela em que Montag pega num dos seus livros escondidos e começa a lê-lo em surdina, como quem, destreinado e ainda um pouco automatizado, ajusta a visão às palavras, sem deixar escapar até a mais pequena informação editorial na página de rosto (o livro em causa é David Copperfield, de Charles Dickens).
Para Truffaut, o amor aos livros é, pois, a razão de ser de Fahrenheit 451. Mas terá sido também assim para o americano Ray Bradbury, autor do romance? Nem por isso. Este entendia que os livros, sendo importantes, não constituem o ângulo essencial da história que quis contar. A obra de 1953 preocupa-se sobretudo com a primazia dos ecrãs. Bradbury, que escreveu Fahrenheit 451 em pleno macartismo, esclareceu em entrevistas que o foco do romance não está na censura, mas sim no poder devastador da televisão, essa caixinha luminosa que começava então a estupidificar as pessoas, dando factos e factoides sem contexto.
Na cabeça do escritor, a proibição dos livros decorria assim, naturalmente, de um desinteresse em massa que se foi instalando em relação à literatura. No fundo, em relação àquilo que nos estimula o pensamento e a imaginação, tornando-nos “infelizes”, para pegar na palavra de Montag, porque esclarecidos – e é aí que esta distopia continua tão atual. Em tempos de agressividade dos ecrãs, e de um certo abandono do maior desses ecrãs (a tela de cinema), em tempos de redes sociais, algoritmo e recrudescimento dos extremismos políticos, os livros lutam para devolver aos leitores o prazer da textura das páginas, antes ainda da qualidade da informação.
A obsessão do fogo
Os livros têm uma relação antiga com o fogo. Desde a destruição da biblioteca de Alexandria à queima de milhares de obras de autores censurados pelos nazis na Opernplatz, hoje Bebelplatz, sem esquecer o incêndio no final de O Nome da Rosa, as chamas parecem ansiar pelo papel, e os próprios homens-livros, em Fahrenheit 451, admitem a Montag que também eles queimam livros: a grande diferença é que o fazem depois de os terem lido e decorado, com o propósito de os transmitirem às próximas gerações. Estas personagens extraordinárias surgem já no final do romance, e no filme,
Truffaut apresenta-as com graça e ternura, começando pela República de Platão e chegando ao Orgulho e Preconceito de Jane Austen.
Eis então a distopia que termina com uma nota de esperança, um idílio.
Inês N. Lourenço
