Mafalda Serrano, em Banda Sonora desta semana, revisita um dos filmes épicos do cinema francês. Pelicula autoral de Claude Lelouch, a sua banda sonora é considerada uma das mais icónicas da história do cinema, pela relação profunda com Bolero de Ravel convertido em eixo central da narrativa, emocional e estrutural de toda a longa-metragem.
22 maio | 21h00
Uns e os Outros / Les Uns et Les Autres (1981)
Realização: Claude Lelouch
Música: Francis Lai e Michel Legrand
Após 45 anos sobre a data da sua estreia, o filme de Claude Lelouch permanece, como uma das mais ambiciosas construções audiovisuais do cinema europeu contemporâneo, obra-charneira onde a memória histórica e musical do século XX se converte em arquitetura musical, coreográfica e cinematográfica.
Situado entre o grande fresco histórico e o poema sinfónico visual, o filme ocupa um lugar único na história da música para cinema pela forma como transforma a sua banda sonora em princípio estrutural da própria narrativa, instaurando uma dramaturgia do ritmo, da repetição e da recorrência emocional.
Construído como uma ampla composição polifónica em torno de quatro famílias e dos seus destinos cruzados entre França, Alemanha, Rússia e Estados Unidos, o filme desenvolve-se segundo uma lógica próxima da fuga musical: temas, gestos, memórias e trajetórias humanas reaparecem continuamente sob formas transformadas, criando uma estrutura circular onde o passado nunca desaparece verdadeiramente, antes regressa incessantemente como ressonância emocional e histórica. A obra adquire assim uma atualidade conceptual notável, numa atualidade ainda marcada pela reflexão sobre memória coletivas, deslocação cultural, transmissão geracional, a realidade das guerras e a persistência do trauma histórico europeu.
A música original de Francis Lai e Michel Legrand articula-se subtilmente com o universo de Maurice Ravel, fazendo deste filme o mais profundamente ravelliano de Claude Lelouch. O filme inteiro parece obedecer ao mecanismo hipnótico do célebre ostinato do Bolero, obra estreada em 1928, convertendo o cinema numa metáfora do eterno retorno, da fragilidade da memória humana e da circularidade do tempo histórico.
A sequência final é uma das imagens matriciais da história do cinema europeu moderno: o extraordinário bailado coreografado por Maurice Béjart e interpretado por Jorge Donn sobre o Bolero transforma o corpo humano em inscrição ritual da memória coletiva.
Les Uns et les Autres teve a sua estreia em França no dia 27 de Maio de 1981, permanecendo como um vasto réquiem coreográfico sobre o século XX, sobre os fantasmas da História e sobre a persistência obstinada da arte perante a erosão do tempo.
Mafalda Serrano
