O episódio desta semana de A Voz das Cores, da autoria de Andrea Lupi, é dedicado à tela de Vieira da Silva, Atelier, Lisbonne. Pintada entre Lisboa e Paris, é considerada uma das obras mais emblemáticas do percurso da artista, pois foi com ela que concebeu uma rutura com a perspetiva tradicional. Vieira da Silva faz assim neste trabalho, uma rigorosa e poética investigação da perspetiva e do espaço geométrico, partindo da estrutura abstrata do próprio local de trabalho.
Atelier, Lisbonne, de Vieira da Silva
Comecei a interessar-me pela perspetiva, porque já ninguém se interessava por ela.
Vieira da Silva
Atelier, Lisbonne, óleo sobre tela com 116 x 145 cm, é uma pintura emblemática na obra de Vieira da Silva.
Inspirada pela perspetiva linear, desenvolvida no Renascimento, Vieira da Silva pintou o seu atelier de Lisboa entre os anos de 1934 e 35, de memória (em Paris) e in loco (em Lisboa). A tridimensionalidade evocada alberga figuras geométricas, linhas retas e curvas, planos e grelhas, numa estrutura utópica e imaginária que a dupla de artistas Sara & André recriou tridimensionalmente, em diálogo com a pintura.
Integradas no 2º ciclo expositivo organizado pela Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, que inaugura a 21 de maio e vai até 13 de setembro de 2026, as obras convocam o espectador – se a pintura de Vieira da Silva sugere um espaço teatral, na qual os atores são as figuras geométricas, na estrutura tridimensional de Sara & André o visitante pode entrar e integrar-se no espaço do Atelier, Lisbonne.
A pesquisa em torno da profundidade marcou muito a obra da pintora portuguesa, que explorou os elementos de Atelier, Lisbonne noutras obras, às quais deu o nome de recherches e compositions.
A exposição conta também com a grande pintura Composition, de 1936, em que um pormenor de Atelier, Lisbonne é isolado e retrabalhado.
As obras foram o ponto de partida para um programa com música de Bartók, Paul Hindemith e Igor Stravinsky.
Andrea Lupi
