Ator, realizador e produtor americano, verdadeira lenda do show business, Mel Brooks está a completar 100 anos e o espírito de comemoração vai do grande ecrã ao streaming, passando pela rádio: depois do ciclo que a Cinemateca organizou em fevereiro à volta do seu cinema, e da estreia, na HBO Max, do documentário de duas partes Mel Brooks: The 99 Year Old Man!, a RTP Antena 2 presta-lhe homenagem no dia do centenário, neste último domingo de junho, pelas 16h00.
Será que Brooks ainda diz alguma coisa aos espectadores das gerações mais jovens? Inês N. Lourenço convida Ricardo Vieira Lisboa, programador da Cinemateca, para uma conversa onde se desfiam estas e outras questões, sempre com o humor do comediante centenário à espreita.
Nascido em Brooklyn a 28 de junho de 1926, com o nome de batismo Melvin Kaminsky (reflexo da origem judaica), o pequeno Mel, órfão de pai, cresceu nos tempos da Grande Depressão rodeado do amor dos três irmãos mais velhos e da mãe, que lhe garantiram, pelo menos até aos cinco anos, uma infância de leveza absoluta, entre sanduíches caseiras e cinema aos sábados de manhã. “Não me lembro de os meus pés tocarem o chão”, escreve nas primeiras páginas da autobiografia All About Me!, dando conta dessa tenra felicidade que raramente é apanágio dos comediantes mais famosos.
Não há então grande mistério quanto ao característico humor infantil de Mel Brooks, que se tornou estratégia de proteção dos bullies…por ser uma criança baixinha. À comédia juntou-se um fraquinho pela Broadway – escape nos anos do serviço militar –, mas foi primeiro a televisão que lhe deu entrada no mundo do espetáculo.
Começou por escrever sketches para Sid Caesar (1922-2014), um dos reputados comediantes da época, e nesse meio conheceu Carl Reiner (1922-2020), com quem criou 2000 Year Old Man, uma parceria performativa na qual Brooks assume a personagem titular, um homem com 2000 anos, que é entrevistado por Reiner. Cinco foram os álbuns que resultaram deste número de sucesso, para além das várias aparições na TV.
Os anos 60 estavam aí e, sem esquecer que o amor (eterno) pela atriz e futura esposa Anne Bancroft se mistura com o ímpeto criativo da década, Mel Brooks dá finalmente o passo para o cinema: o “ensaio” foi o argumento de uma curta-metragem de animação, The Critic (1963), vencedora de Óscar, e, antes de chocar meio mundo com The Producers (1967), coassinou ainda com Buck Henry a popular série Get Smart (1965-70), que parodiava a moda James Bond.
História de um esquema fraudulento engendrado por um produtor teatral e o seu sócio, The Producers fez correr muita tinta. Porquê? O motivo é bem conhecido: o “falhanço” fabricado dentro do filme intitula-se Springtime for Hitler e é um musical a ridicularizar o Terceiro Reich… Muitos foram os que não toleraram a brincadeira do realizador judeu, e, no entanto, o filme converteu-se numa obra de culto, validada por um Óscar de Melhor Argumento!
Mais tarde, houve uma versão na Broadway (2001) e um remake (2005), mas antes disso, os maiores êxitos de Brooks no cinema foram mesmo Balbúrdia no Oeste e Frankenstein Júnior, ambos ocupando o 2º e 3º lugares no Top dos filmes americanos mais rentáveis de 1974.
Como estes títulos confirmam, a marca de Brooks como realizador passa pelo gesto da paródia, que tende a despir de solenidade qualquer instituição cinematográfica, seja o género do western (Balbúrdia no Oeste), o romance de Mary Shelley, na adorada adaptação de James Whale (Frankenstein Júnior), o estilo hitchcockiano (Alta Ansiedade), o fenómeno das space operas (A Mais Louca Odisseia no Espaço) ou a lenda de Robin dos Bosques (Robin Hood: Heróis em Collants).
Como produtor, fora da comédia, está associado a um dos mais acarinhados filmes de David Lynch, O Homem Elefante (1980), ao terror segundo David Cronenberg, através de A Mosca (1986), e ainda ao drama A Rua do Adeus (1987), de David Hugh Jones, uma prenda para a mulher, Anne Bancroft, que o protagoniza.
Com uma vida cheia, apaixonada, um lugar cativo nos EGOT (a lista restrita de figuras do mundo das artes que venceram um Emmy, um Grammy, um Óscar e um Tony), e energia suficiente para pequenas participações aqui e acolá, Mel Brooks é um centenário com ponto de exclamação!
Inês N. Lourenço