O segundo episódio da Sala 2 é uma homenagem ao cineasta húngaro Béla Tarr feita através da música de Mihály Vig, seu recorrente colaborador.
Desaparecido há poucos dias, com 70 anos, o realizador húngaro Béla Tarr definiu uma importante parceria com o compositor Mihály Vig em parte significativa da sua obra. Também húngaro, nascido em Budapeste em 1957, Mihály Víg teve por “escola” o internacionalmente quase invisível panorama pop/rock húngaro dos tempos anteriores à queda da cortina de ferro. Fundou os Balaton (ainda hoje ativos) em 1979 e, um ano depois, os Trabant.
Começou a trabalhar com Béla Tarr em 1984 em Almanaque de Outono em cuja banda sonora as experiências nos domínios pop/rock e periferias são ainda bem visíveis. De resto esta dimensão pop ainda atravessa projetos seguintes, como aconteceu na música que criou para Danação (1987) e para o colossal Tango de Satanás (1994), que tem mais de sete horas de duração.
Por esta altura começava a ganhar forma um daqueles raros entendimentos entre realizador e compositor como sucedeu com o par Eleni Karaindrou e The Angelopoulos ou, a dada altura, Michael Nyman e Peter Greenaway.
O trabalho entre ambos continuou no ano 2000 em As Harmonias de Werkmeister. Tal como no Tango de Satanás, este filme parte de um romance do húngaro Lazlo Kraznahokai, laureado com o Nobel da Literatura em 2025. A ação decorre na Hungria comunista, cruza-se com o pensamento do organista e musicólgo alemão Andreas Werkmesister que viveu no século XIV. Esta banda sonora abriu contudo um novo rumo para a música de Mihály Vig.
O trabalho de colaboração entre o compositor e o realizador prosseguiu em 2007 com O Homem de Londres, filme baseado num romance de Georges Simenon e que envolveu no elenco a atriz britânica Tilda Swinton. Depois, em 2011, chegou O Cavalo de Turim, filme cuja presença sonora mais evidente é o som do vento que sopra em rajadas intermináveis. O realizador podia ter vincado mais ainda o sentido de austeridade deste filme caso não usasse senão a “música” do vento. Mas uma vez mais fez questão de chamar ao seu cinema o trabalho de Mihály Víg.
Béla Tarr avisou então que este ia ser o seu último filme. E de facto não voltou a criar nenhuma obra de grande fôlego. Houve apenas dois projetos documentais. Muhammed, uma curta, em 2017. E Missing People, em 2019.
Nuno Galopim