Filho de judeus russos emigrados nos Estados Unidos, George Gershwin chamava-se na verdade Jacob Gershowitz. O seu interesse pela música começou cedo. E o seu primeiro trabalho levou-o a promover canções para uma das muitas companhias de publishing da cidade. Pouco depois apresentou temas de sua autoria, obtendo um primeiro êxito em 1917 com Riatlo Ripples. Estudava já piano e composição e, atento às novas formas musicais e à vida da cidade de Nova Iorque, em pouco tempo revelava-se capaz de traduzir, pela sua música, o tempo e lugar onde vivia. Nos anos 20 assinou uma série de musicais de grande impacte na Broadway, estabelecendo uma parceria com o irmão Ira, letrista, que inevitavelmente manteve na hora de trabalhar em Porgy and Bess.
A ideia de fazer uma ópera nasceu depois de Gershwin ter visto uma adaptação ao teatro de Porgy, de Dorothy e DuBose Heyward. Juntos começaram a desenvolver os planos para uma ópera folk, assente na história do amor de um negro que vive num bairro pobre de Charleston (na Carolina do Sul) e uma mulher, Bess, o seu ex-amante e um violento dealer. Em 1927 uma primeira dramatização do romance chamou a atenção de muitos. E, pouco depois, Gershwin, o irmão e o casal Heyward, começavam a trabalhar. No Verão de 1934, chegaram a passar uma temporada perto de Charleston, para sentir os climas vivenciais, sociais e culturais da região… E poucos meses depois, em setembro de 1935, a ópera estreava em Boston, antecipando a chegada à Broadway, onde a produção original conheceu 124 espetáculos.
A produção original, de 1935 foi o ponto de partida para uma vida que ainda hoje faz de Porgy and Bess uma fonte de acontecimentos. Sucederam-se as produções, com alguns momentos da música revistos por Gershwin. As primeiras gravações em disco datam logo do ano da estreia, todavia por cantores brancos. O elenco original chegou a disco só em 1940, quando a ópera foi reposta na Broadway.
Apesar das reações críticas de muitos músicos afro-americanos, nos anos 50 começaram a surgir versões de canções da ópera em disco. Em 1957, Louis Armstrong e Ella Fitzgerald gravaram um álbum com canções de Porgy and Bess. Com realização de Otto Preminger, a ópera chegou ao cinema em 1959. O sucesso no grande ecrã gerou ainda mais versões, sobretudo de Summertime, que surgiu em discos de figuras como Nina Simone, John Coltrane, James Brown, os Zombies, Peter Gabriel, os portugueses The Sheiks ou Joni Mitchell.
Miles Davis e Oscar Peterson criaram álbuns inteiros nos quais interpretam, à sua maneira, fragmentos da ópera. Keith Jarrett, Sarah Vaughan ou Frank Sinatra recriaram canções que ali nasceram. Juntamente com o álbum de 1959 de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, leituras pela The Jim Cullen Jazz Band ou por Isaac Stern e ainda uma interpretação canónica dirigida por Simon Rattle, este conjunto de visões sobre Porgy and Bess passam esta semana pelo Gira Discos.
Nuno Galopim