Nos 40 anos de Songs From Liquid Days, o Gira Discos dedica o episódio desta semana a incursões de Phillip Glass pelo universo da canção. O álbum, de 1986, é ponto de partida para uma viagem que não esquece as primeiras óperas (citadas através da antologia Songs From The Trilogy) nem o já referido The Photographer, e inclui ainda não apenas o ciclo Book Of Longing criado sobre poemas de Leonard Cohen e ainda discos de Tara Hugo, Ute Lemper ou de Martin Achrainer nos quais a obra de Glass ganhou vida.
É pop, mas não é pop. É clássico, mas não é clássico. Os jogos de paradoxos que eventualmente possam morar na identidade da música de Philip Glass, sobre os quais o próprio graceja no episódio a si dedicado pela série Four American Composers (de Peter Greenaway), ganharam expressão maior em Songs From Liquid Days, um ciclo de canções que o compositor criou para edição em disco em 1986.
Por essa altura Philip Glass tinha já alguma experiência na criação de música vocal, não só através dos seus primeiros trabalhos para os palcos da ópera, mas também na canção A Gentleman’s Honour integrada em The Photographer. A canção, que o compositor identifica nas notas que acompanham o disco como a “mais básica das formas de expressão musical”, era, em meados dos anos 80, um objctivo na sua linha do horizonte. E o ponto de partida foi encontrado em palavras pedidas a David Byrne, com quem já antes havia trabalhado. A ele juntou as colaborações (na escrita) de Paul Simon, Suzanne Vega e Laurie Anderson, figuras com experiência em campos pop/rock que admirava não apenas pelo seu trabalho de composição mas também pela carga poética expressa nas respetivas canções. Só depois de encontrados os poemas avançou a composição. E, no fim, as vozes. Assim se juntaram num mesmo disco, nomes como os acima citados e ainda os de Linda Rondstat, Douglas Perry, The Roches ou o Kronos Quartet.
Songs From Liquid Days, que precede futuras composições e arranjos para as vozes de Marisa Monte, Pierce Turner, Mick Jagger, Natalie Merchant ou Ute Lemper e, mais tarde, um novo ciclo de canções com poemas de Leonard Cohen, é um herdeiro direto da relação próxima com a cultura popular partilhada por algumas figuras da “vanguarda” nova-iorquina dos anos 70 e, ao mesmo tempo, um fruto do progressivo trabalho para lá dos fundamentos básicos do minimalismo nos quais nascera a linguagem musical de Philip Glass. Notam-se aqui não apenas sinais de um mais largo espectro de soluções nos arranjos (que o projeto para disco Glassworks, de 1982, já havia sugerido) e ainda ensinamentos colhidos em primeiras experiências na ópera.
Nuno Galopim