Ruth Gipps

Ruth Gipps

Cem Sóis a Abater

Ruth Gipps

Ruth Gipps

Cem Sóis a Abater

A primeira série do programa de Inês Almeida sobre mulheres compositoras, Cem Sóis a Abater: Retratos de Mulheres Compositoras estreou no início de setembro. Cada episódio foca-se na biografia de uma personalidade, enquadrando-a no seu tempo e fornecendo pistas de escuta musical. Este episódio é dedicado a Ruth Gipps, uma das mais prolíficas compositoras, maestrinas, oboístas e pianistas britânicas do século XX.

Ruth Dorothy Louisa Gipps (1921–1999), compositora, maestrina, pianista e oboísta britânica, desenvolveu uma carreira marcada pela precocidade musical, pela independência estética e pela resistência aos obstáculos impostos às mulheres na vida profissional.

Nasceu em Bexhill-on-Sea, numa família anglo-suíça que se instalara em Inglaterra no início da Primeira Guerra Mundial, e recebeu da mãe, pianista e diretora de uma escola de música, a formação inicial.
Apresentou-se publicamente ainda criança e, em 1929, publicou a miniatura pianística The Fairy Shoemaker. Em 1937 ingressou no Royal College of Music, onde estudou composição com Gordon Jacob, R. O. Morris e Ralph Vaughan Williams, e oboé com Léon Goossens. A Segunda Guerra Mundial, vivida entre os bombardeamentos de Londres e o receio de invasão, imprimiu urgência à sua actividade criadora. O poema sinfónico Knight in Armour, concluído em 1940 e dirigido por Henry Wood na última noite dos Proms de 1942, deu-lhe projeção nacional. Datam igualmente desse período o Concerto para Oboé, a fantasia Jane Grey, o Concerto para Violino, destinado ao irmão Bryan, e a elegia orquestral Death on the Pale Horse.
Casada desde 1942 com o clarinetista Robert Baker, Gipps trabalhou como oboísta e executante de corne inglês na Orquestra da Cidade de Birmingham, beneficiando das oportunidades abertas pelas ausências masculinas durante a guerra. Sob o incentivo de George Weldon, viu estrear as duas primeiras sinfonias: a Primeira, em 1945, num concerto em que também interpretou Glazunov ao piano, e a Segunda, em 1946.

O regresso à paz trouxe dificuldades acrescidas: os militares retomavam os seus lugares, as oportunidades para mulheres diminuíam e a mudança para Londres expôs Gipps a um meio menos receptivo às suas ambições orquestrais. Diversificou então a actividade entre a música de câmara, a direcção coral, o jornalismo e o ensino, enquanto uma lesão limitava a carreira de concertista.

Em 1947 nasceu o filho Lance, futuro trompista, e compôs The Cat, cantata que lhe valeu o doutoramento em Música pela Universidade de Durham, em 1948. O Concerto para Piano em Sol menor, de 1947–48, afirmou uma escrita expansiva, de forte impulso rítmico e lirismo romântico. Seguiram-se obras como Cringlemire Garden, evocação paisagística para cordas, Coronation Procession, concebida para o contexto da coroação de Isabel II, e a Sonata para Clarinete, distinguida com o Prémio Cobbett em 1956.

Em 1955 fundou a London Repertoire Orchestra, que dirigiria durante trinta e um anos, proporcionando experiência orquestral a estudantes, recém-diplomados e jovens solistas. Criou também o Portia Wind Ensemble, exclusivamente feminino, para o qual escreveu Seascape, em 1958. A sua defesa da melodia, da tonalidade e da tradição pastoral inglesa tornou-se particularmente controversa perante a ascensão do serialismo e das vanguardas, cuja crescente influência nas instituições, sobretudo na BBC, condicionava a circulação de outras linguagens musicais.

Em 1961 Gipps fundou a orquestra profissional Chanticleer, comprometida com a apresentação de compositores vivos, e continuou a apoiar intérpretes como Julian Lloyd Webber e Iona Brown. A Terceira Sinfonia, concluída em 1965, assinalou o regresso ao género através de uma construção contrapontística elaborada e de uma orquestração rica em contrastes.
Em 1967 sucedeu a Gordon Jacob no Royal College of Music e tornou-se a segunda mulher a presidir à Composers’ Guild, colaborando com Elizabeth Yeomans na criação do British Music Information Centre.
O Concerto para Trompa, escrito para Lance em 1968, e a Quarta Sinfonia, de 1972, dedicada a Arthur Bliss, contam-se entre as suas realizações mais significativas. As divergências com o ensino modernista levaram-na a abandonar o Royal College em 1977 e a prosseguir a docência no Politécnico de Kingston.

Distinguida em 1981 como Membro da Ordem do Império Britânico, concluiu no ano seguinte a Quinta Sinfonia, dedicada a William Walton: a mais ambiciosa das suas formações orquestrais culmina numa missa instrumental, expressão da sua profunda religiosidade.
Nos últimos anos escreveu ainda Ambarvalia, homenagem a Adrian Cruft, e a Sonata para Contrabaixo, de 1996, destinada a David Heyes, sua derradeira composição.
Morreu em Eastbourne a 23 de Fevereiro de 1999, após doença oncológica e um acidente vascular cerebral.

A publicação do catálogo de Alan Poulton, em 2000, e a renovação de concertos e gravações, intensificada pelo centenário de 2021, favoreceram a reavaliação de uma obra em que o cromatismo, a flexibilidade rítmica e a cor instrumental servem uma comunicação emocional directa, inseparável de um duradouro compromisso com os músicos e a vida musical britânica.
Inês Almeida